Entrei na loja Tripsul¹ para comprar um shape². O atendente era o grafiteiro Vinicius de Moraes, conhecido como Bero. A Tripsul estava vendendo uma leva de shapes sem desenho. Naquele momento, esses modelos tinham um valor acessível para skatistas adolescentes como eu. Depois de pagar pelo produto, conversando com Bero, ele lembrou de uma revista que havia chegado na loja, foi até uma prateleira, pegou o exemplar, me entregou e disse que eu poderia levar. Assim que segurei a revista, percebi que estava diante de algo que iria ampliar minha visão do skate.

Na capa, havia a fotografia de um skatista manobrando sobre uma estrutura arquitetônica. No enquadramento, o fotógrafo criou uma perspectiva em que o skatista aparece suspenso no ar, ao lado do que me pareceu, à primeira vista, uma barra estreita. Foi preciso olhar várias vezes, com atenção, para entender que o skatista manobrava sobre uma estrutura plana. A revista era a edição de maio/junho de 2008 da Vista Skateboard Art.

Capa da edição nº 18 da Vista Skateboard Art, maio/junho de 2008

A Vista Skateboard Art começou como uma revista bimestral em 2004, com sede em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. A publicação chegou a alcançar uma tiragem de 20 mil exemplares, distribuídos gratuitamente. Embora tivesse a cultura do skate como ponto de partida, a revista também aborda temas como graffiti, pixação, música, design, videogames, cinema e outras manifestações artísticas relacionadas à cultura urbana. Sua proposta não se restringia à divulgação de informações, buscava também estimular e mobilizar seu público. Na edição nº 18, que ganhei do Bero, o editorial afirmava:

“Uma vida é feita para ser vivida. Óbvio, muito óbvio. Mas quantos de vocês continuam por aí só queimando os cartuchos das suas vidas nas mesmas ruas sem graça, encontrando as mesmas pessoas sem conteúdo e procurando responsáveis por suas magras atuações no mundo real? Nesta Vista temos alguns personagens que resolveram trazer pra seus kharmas novas possibilidades. Longe do útero materno, das suas ruas, negando-se a viver do vício local, enfrentando os monstros além-mar numa frenética busca pelo prazer, de viver.’’ (SKLAR, Tobias. Editorial. Vista Skateboard Art, n. 18, Porto Alegre, maio/jun. 2008.)

O skatista manobrando na capa é o dinamarquês Magnus Maarbjerg. Na apresentação da entrevista, a revista chama atenção para o fato de o dinamarquês ter deixado a Europa para andar de skate no Brasil, realizando um movimento contrário ao que muitos skatistas brasileiros almejam. Ao longo da conversa, Magnus contou que cresceu em uma comunidade hippie e, quando ainda era criança, seus pais compraram um veleiro em parceria com amigos da comunidade. Aos 12 anos, já havia atravessado o oceano Atlântico três vezes: a primeira, quando tinha um ano e meio; a segunda, aos seis anos; e a terceira, aos 12, quando já praticava skate e teve a oportunidade de andar em lugares como Venezuela, Cuba e Miami.

Na entrevista, Magnus contou que, para viajar a São Paulo em 2008, trabalhou durante três meses em Copenhague com o objetivo de juntar dinheiro para a viagem. Embora reconhecesse que as cidades europeias ofereciam uma arquitetura urbana mais favorável à prática do skate, Magnus apontava a ausência de uma indústria própria como uma limitação para a profissionalização na Europa, onde, segundo ele, as principais marcas eram norte-americanas e havia poucas possibilidades de viver do skate com um salário. No Brasil, por outro lado, a existência de uma indústria nacional mais desenvolvida tornava, em sua percepção, a profissionalização no skate uma possibilidade mais concreta.

Ao apresentar a trajetória do skatista dinamarquês, a revista apresenta um determinado modo de viver o skate. Com a infância marcada pela cultura hippie e pelas viagens realizadas com os pais, Magnus associa o skate à liberdade, à circulação e ao contato com diferentes culturas. Ao mesmo tempo, a escolha dessa trajetória como objeto de destaque permite problematizar as condições que possibilitaram esse tipo de experiência, especialmente quando comparada à realidade de jovens skatistas brasileiros. Uma leitura atenta da entrevista também revela o abismo socioeconômico entre Brasil e Dinamarca, perceptível no tempo que Maarbjerg precisou trabalhar para viabilizar a viagem a São Paulo.

A partir das circunstâncias que atravessam a trajetória de Magnus, é possível retomar discussões realizadas em sala de aula a partir das reflexões de Freud sobre o mal-estar na cultura. A vida em sociedade possibilita a convivência entre os indivíduos, ao mesmo tempo que impõe limites às suas possibilidades de satisfação e liberdade. Nesse sentido, a associação recorrente entre o skate e a liberdade não precisa ser compreendida como uma condição absoluta, mas como uma experiência construída pelo praticante, independentemente de suas condições sociais. A trajetória de Magnus Maarbjerg apresentada pela Vista Skateboard Art evidencia essa dimensão. Embora sua experiência seja marcada pelas viagens e pela possibilidade de andar de skate em diferentes lugares, sua realização dependia também de condições materiais concretas, como o trabalho realizado para financiar sua viagem a São Paulo e a busca por oportunidades de profissionalização no continente europeu.

A Vista Skateboard Art deixou de circular como revista impressa, mas parte de sua proposta permaneceu no ambiente digital por meio do site de notícias e passou a funcionar também como estúdio de comunicação e marketing. Não consegui encontrar o momento exato em que a publicação impressa deixou de circular, embora acredite ter sido entre 2012 e 2015. Ao entrar em contato com a revista durante a realização deste ensaio, percebi a dimensão de um material que ultrapassa o registro da prática do skate. A Vista Skateboard Art reúne questões relacionadas ao amadurecimento e à entrada da cultura urbana no mainstream, ao mesmo tempo que evidencia manifestações artísticas ligadas ao seu tempo. Isso despertou meu interesse em aprofundar a pesquisa sobre a trajetória da revista e sobre o papel que ocupou na construção e na circulação de representações da cultura skatista no Brasil.

Notas:

  1. TripSul era uma loja especializada em artigos de surf e skate, localizada na Galeria Malcon, em Pelotas (RS).
  2. Shape é a peça de madeira do skate sobre a qual o skatista posiciona os pés. Sua forma e dimensões podem variar de acordo com o tipo de prática e as preferências do praticante.

Ensaio escrito para a disciplina de Leituras na Perspectiva dos Estudos Culturais, do curso de LVVT do IFSul – Câmpus Pelotas.

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