A Nova York de 1851 estava distante da metrópole que viria a ser. Nas ruas de paralelepípedos, passavam carroças puxadas por cavalos mancos. No prédio mais alto, era possível consertar o telhado usando escadas. Não havia pontes nem túneis. Pelo rio Hudson, passavam barcas a vapor com rodas de pás. No dia 18 de setembro daquele ano, em um sótão da rua Nassau, à luz de velas, foi montado um jornal de quatro páginas. Custava um centavo. Era a primeira edição do diário que conhecemos hoje como The New York Times.
Na sexta-feira passada, o New York Times completou 175 anos. Ao longo do século XX, ganhou tanta importância que os alienígenas, ao chegarem à Terra, recorriam às suas páginas para se inteirar do que estava acontecendo no mundo. Esse império da notícia começou a ser erguido em 1896, quando Adolph Ochs comprou o diário por 75 mil dólares, criou sua dinastia e transformou o jornal na instituição familiar mais importante dos Estados Unidos.
A filha de Adolph – Iphigene Ochs Sulzberger –, quando assumiu a empresa após a morte do pai, costumava contar uma história que se tornou popular. Um viajante encontra três cortadores de pedras ao longo de uma estrada e pergunta a cada um o que está fazendo. O primeiro responde: “Estou cortando pedras”. O segundo diz: “Estou fazendo uma pedra angular”. Quando a pergunta era feita ao terceiro, ele replicava: “Estou construindo uma catedral”. Iphigene dizia que a força do New York Times vinha de uma tradição de jornalistas construtores de catedrais, e não cortadores de pedras.
Aos 175 anos, o New York Times se vê diante de uma batalha que atravessa todo o jornalismo contemporâneo: a disputa pela atenção. Nunca consumimos tanta informação quanto agora. E talvez esse seja justamente o problema. As redes sociais se transformaram no grande fórum do nosso tempo, uma praça digital onde notícias, opiniões, entretenimento e publicidade disputam o mesmo espaço. Tudo está ali, ao alcance de um toque, e boa parte desse conteúdo chega ao público sem que ele precise pagar diretamente por ele. O jornalismo atravessa uma crise econômica tão forte quanto o vendaval que passou por Pelotas. Quando os ventos se acalmarem, talvez só permaneçam de pé as catedrais.

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