Os acontecimentos que vão nos marcar ao longo da vida acontecem quando a gente menos espera. Ainda mais quando somos imberbes, sem nem uma década de vida, temos de dar a mão para atravessar a rua ou pedir permissão para ir à venda. Foi nessa época, num domingo dos anos noventa, que saí com meus pais para ir ao supermercado. No caminho, era preciso passar por uma passarela que liga o bairro Simões Lopes ao Centro, ao lado da antiga estação ferroviária. Foi sobre essa passarela que vi, pela primeira vez, a galera andando de skate.

A estação ferroviária é um prédio tombado como patrimônio arquitetônico, mas, naquela época, a arquitetura estava mesmo quase tombando. O prédio estava há muito tempo desativado, para não dizer diretamente, atirado às traças. A plataforma de embarque, com chão de cimento liso e nenhum movimento, foi uma descoberta apropriada para os skatistas habitarem.

Nos anos noventa, para andar de skate com sossego, era preciso estar em lugares pouco movimentados. As pessoas não eram simpáticas com os skatistas. Posso dizer que não eram nada simpáticas. Os skatistas eram tidos como jovens, drogados e desordeiros, o que, de certa forma, tinha um pouco de verdade. Por isso, após esse domingo, pedi e pedi um skate para os meus pais, mas precisaram de uns dois ou três natais para a coisa acontecer.

Faz algo em torno de vinte e seis anos que o skate entrou na minha vida. Em muitos momentos, escolhi andar de skate em vez de ir para a faculdade ou mesmo trabalhar. A liberdade que o skate me proporciona, queria que fizesse parte, intensamente, da minha juventude. Às vezes, deu certo; outras, não. Neste mês, iniciei minha jornada no mestrado em História, com uma pesquisa voltada para a história do skate em Pelotas. Continuo perseguindo o sentimento de liberdade.

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