• Nesses últimos dias do ano, a galera costuma mostrar a retrospectiva das suas leituras. Sempre rola de pegar nessas listas alguma dica para a próxima ida à livraria, mas também dá uma pitada de angústia por não ter conseguido ler aquele lançamento tão bem falado. Sempre haverá mais livros para ler do que tempo. Certamente, tu sabes escolher qual é o mais apropriado.

    Como entramos nessa vibe de retrospectiva, gostaria de comentar sobre um livro e um filme que fizeram a minha cabeça. Ambos vêm da mesma fonte, uma fonte que completou cem anos em 2025. Quando o assunto é jornalismo literário, é a precursora. Claro que estou falando da minha, da tua, da nossa: The New Yorker Magazine.

    Ainda lá por janeiro, onze meses antes do Natal, a Editora Carambaia presenteou os leitores brasileiros com o livro Sempre Repórter – textos da revista The New Yorker, da Lillian Ross. Com muitas ideias para os amantes da arte da reportagem, esses textos inéditos em português trouxeram, pelo menos para mim, insights, epifanias e uma ideia mais ampla de quanto a revista se preocupa não apenas com o assunto, mas, principalmente, em publicar textos bem escritos.

    Já o documentário The New Yorker at 100, lançado em dezembro na Netflix, dá luz, câmera e ação à imaginação dos leitores. A equipe do cineasta Marshall Curry mostra o cotidiano dos profissionais, uma turma com muito estilo e personalidade. Mesmo que haja um papo sobre como fazer a revista não parecer antiquada, ao olhar as cenas, tu percebe que nada daquele andar no World Trade Center parece antiquado. Depois de assistir ao filme, até fixei no Instagram uma foto em que apareço lendo a revista.

  • O Xavante entrou em campo calçando as chuteiras da humildade, respeitando o adversário após o empate na primeira partida, mas não deixou eles se criarem. Desde o início do jogo, assumiu a postura de um Hércules frente aos seus doze trabalhos, avançou feito legiões romanas atacando bárbaros e, encarando o Aimoré como o exército persa do rei Xerxes, os onze de camisa rubro-negra jogaram com uma garra espartana de alma castelhana.

    O 2×0 no primeiro tempo criou o ambiente para o momento mais sagrado na vida do torcedor, ver o seu time ser campeão. É um instante mágico em que tudo se transforma em alegria. Ao meu lado na arquibancada, teve pai abraçando o filho com força, genro que beijou a sogra, e esposa que se viu tão alegre que precisou mandar um WhatsApp pro amante, e estava tudo certo. Tudo é felicidade quando tu pode estufar o peito e gritar: É campeão, é campeão…

    E o ruído ensurdecedor que se formava entre aquelas milhares de almas dava ao Bento Freitas uma grandiloquência de ópera. Nem um Andrea Bocelli, nem um Pavarotti têm o pulmão tão forte para gritar como gritou o torcedor xavante. Eram bocas pretas, brancas e amarelas, em algumas, visivelmente, faltavam alguns dentes. Mas esse detalhe ortodôntico ajudava o grito a sair da boca, extrapolar as arquibancadas e ecoar pelas ruas da cidade.

  • O novo bamba do conhecimento é o ChatGPT. Há inúmeros artigos na imprensa dando a máquina como insuperável, um sabichão que guarda milhares de terabytes de conhecimento e os computa em segundos. Alguns já têm como certo que os escritores logo-logo levarão um 7×1 da inteligência artificial, eu ainda tenho algumas dúvidas.

    Num dia desses iniciei o teste de Turing com o ChatGPT, e fui direto a parte que me toca, sem cumprimentos, pedi que ele escrevesse uma crônica sobre o Café Aquários: “O café Aquários é uma instituição nesta pequena cidade mineira. Fundado há mais de 50 anos, o estabelecimento é o ponto de encontro favorito dos moradores locais, que se reúnem lá para tomar um cafezinho e bater um papo descontraído”, disse a I.A.

    Essa redação entregue por um aluno que está se esforçando para fazer a quarta série forte, se a professora bocejar na leitura, o ChatGPT passa com média. Lembrei agora de uma história: a da tradução do romance Ulysses feita pelo Antônio Houaiss. Era como se tu ligasse pra falar com o James Joyce e o Antônio Houaiss não saia da linha. À boca miúda, diziam que o maior dicionarista do Brasil conhecia todas as palavras, mas não conseguia juntá-las.

    Brincadeiras à parte, o gerador de texto da OpenAI é uma ferramenta surpreendente. Ainda são textos recheados de lugares comuns, mas logo ele vai se aprimorar, aí é que são elas. Uma coisa que a I.A. não vai conseguir tão cedo — é a experiência humana, ela pode até descrever o gosto do cafezinho do Aquários, mas não consegue queimar os beiços na xicrinha pelando de quente.

    24/04/2023

  • O travessão sempre foi um sinal de pontuação que se apresentava de terno e gravata, usado por escritores com estilo sofisticado. Hoje em dia, ele está ameaçado de vestir roupa listrada, tipo as dos presídios americanos. Usá-lo virou sinônimo de cópia de textos escritos por inteligência artificial, uma espécie de literatura fast-fashion. Nos livros, ele ainda se apresenta de traje social, o leitor confia na curadoria da editora. Mas, em textos da internet, quando aparece um travessão, a primeira coisa que vem na cabeça é o ChatGPT.

    Mesmo que o escritor seja um laureado, um alfaiate do abecedário, assim que vemos o travessão na frase, a pulga atrás da orelha começa a roçar. Tanto que, esses dias, caminhando pra casa, reparei numa pixação que dizia: “Entre o caos e o céu — eu passo”. Nunca tinha visto pixo com travessão, isso só pode ser frase criada com IA.

    A palavra travessão deriva de “travessia”, que significa a ação de atravessar uma região, um continente ou uma era. Nessa era da inteligência artificial, o travessão se tornou a roupa que estamos vestindo para ir à festa da hiper-realidade. Mas por que a inteligência artificial usa tanto esse sinal? Talvez pelo fato de muitos dos textos usados para treiná-la terem o travessão como sinal de estilo.

    É aí (ou IA?) que começa o enrosco. Muitos dos textos usados para treinar as inteligências artificiais vem de jornais que não liberaram o seu conteúdo. Se você perguntar para uma IA: qual é a manchete da Folha de São Paulo de hoje?, ela vai furar o paywall do jornal e te dar um resumo da matéria, às vezes até na íntegra. Mais constrangedor é que o texto vem com travessão em frases em que ele não aparecia no original. Além de não respeitar os direitos autorais, costura o travessão no texto alheio. A Folha de São Paulo não deixou por menos, processou a OpenAI e quer que o travessão, definitivamente, vista roupas listradas.

  • Tenho lembranças da Feira do Livro desde o tempo em que eu ainda nem era leitor. Não fazia ideia do que era uma perífrase, nem passava pela minha cabeça o que poderia ser uma pentapodia — ainda mais um rispetto —, mas eu abria um sorriso quando meu pai dizia que minha tia tinha uma “boquinha de tramela” ou quando um amigo ia “mocosar” os cigarros. Minha atenção sempre esteve inclinada para a linguagem. Foi esse interesse que me fez encontrar os livros e achar a literatura algo “de gabara’’.

    Mas não conto com a ideia de que um leitor é a pessoa que vai gabaritar os estudos, literatura tem a ver com sensibilidade, com o olhar para o mundo. “Ler é mais importante que estudar”, ensinou o Ziraldo. O Menino Maluquinho foi um dos primeiros livros que ganhei na Feira do Livro. Eu adorei, pois em cada página havia uma frase, e tu ia folheando com agilidade, pegando o embalo da leitura.

    Gostaria de lembrar a primeira frase de O Menino Maluquinho, vou até procurar o livro aqui na estante. Mas tem essa coisa legal que é o “teste da primeira frase’’, um jogo que gosto de praticar durante a Feira do Livro. Essa ideia de a primeira frase ter de ser arrebatadora, aprendi no finado blog Todo Prosa, do Sérgio Rodrigues, quando ele contou sobre o início de livro mais lembrado da literatura: “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, de Anna Kariênina, do Tolstói.

    Se tu ainda não leu Tolstói, vale a pena. Mas se tu não achar interessante, é só uma dica, a grande leitura é sempre aquela que nos dá prazer. Às vezes é a capa do livro que nos leva para a leitura. Mas o teste da primeira frase é muito divertido. Tente quando tu estiveres cavucando nos sebos. Fui à Feira do Livro essa semana e fiz um dos achados da minha vida: uma coleção da editora Leya com treze livros do Manoel de Barros. Essa eu não vou esquecer nunca. Quando bati os olhos nos livros, no sebo Icária, abri um dos volumes e li a primeira frase: “Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia’’.

  • Todas as vezes que fui ao Largo do Mercado, havia gente vendo as fotografias da exposição Memorial das Águas. Alguns olhavam de longe, outros paravam e analisavam as imagens uma por uma, lendo as legendas e procurando entender as histórias. Essa é a quarta exposição do projeto, intitulada Gratidão, que relembra, em fotografias, a maior tragédia ambiental da história do Rio Grande do Sul.

    A fotografia é uma troca de olhares. O espectador é atingido pelo seu conteúdo, sem tempo para se defender. A fotografia é uma linguagem que, nesses tempos de ultra velocidade das informações, consegue chamar a atenção para temas sérios. Poucos parariam, digamos, por 15 minutos, para assistir a um documentário audiovisual sobre uma tragédia. A fotografia proporciona às pessoas refletirem sozinhas, no seu tempo, fazendo a leitura de acordo com a sua vivência.

    O fotógrafo é um ilustrador da história. Esses profissionais estudam, praticam por anos, investem em equipamentos necessários e, muitas vezes, correm riscos para conseguir captar um fato importante. Chegamos agora a um comentário que é triste: há uma desvalorização dos profissionais da fotografia. É também uma desvalorização de mercado, mas, quando ela chega ao nível comportamental, torna-se algo desrespeitoso.

    Não há quem trabalhe no ramo e não tenha ouvido algo do tipo: “Tu faz umas fotinhos pra mim?” ou “coisinha simples”, como se o fotógrafo estivesse sendo convidado para um piquenique, e não para trabalhar. Ou ainda mais invasivo: “Tu não quer dar uma força?”, situações que diminuem o trabalho do profissional. Mas, nesses tempos de redes sociais, há ainda uma situação pior, quando alguém quer usar a tua foto e acredita que dar os créditos é suficiente. A frase: “Eu coloco teu @” virou a expressão representante da desvalorização criativa.

  • Após publicar no Instagram fotos da minha última viagem, alguns amigos me disseram que eu fui ao Rio de Janeiro para fotografar estátuas. Na verdade, eu fui atrás de inspiração para escrever. As estátuas que fotografei são uma consequência da vida literária, tanto da minha vida literária quanto da vida dos literatos que admiro e que estão homenageados em bronze nas ruas da cidade.

    Clarice Lispector está de costas para a praia de Copacabana, num ponto em que é possível enxergar a extensão entre o Leme e o Pontal. Seu olhar ignora a paisagem, como se seus pensamentos fossem mais inspiradores do que o mar. Segurando um livro, com seu companheiro, o cachorro Ulisses, deitado ao lado, ela reflete sobre sua escrita. E como eu sei que ela está pensando sobre escrita? Olha o que diz na placa de identificação: “Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra.”

    Agora, o prosador carioca mais popular de todos os tempos caminha por uma calçada da Rua Barata Ribeiro, no meio urbano de Copacabana. Entre os bares e botequins, onde o chope rola solto e as histórias da vida alheia e as partidas de futebol são discutidas como as questões fundamentais da filosofia do povo brasileiro, a coluna “A Vida Como Ela É’’ foi um fenômeno no letramento dessas redondezas. Há boatos — boatos não, eu acredito que foi verdade — de que pessoas que não sabiam ler compravam o jornal e pediam para alguém ler a coluna para elas ouvirem. Nelson Rodrigues foi um escritor que causou interesse até em quem não sabia ler. Claro, o real motivo era ficar por dentro da última história de adultério, em que os personagens tinham muitas semelhanças com os moradores do bairro, e se dizia que o Nelson recebia essas histórias em primeira mão, à boca miúda, e as usava para criar suas crônicas para o jornal.

    No pé da Pedra do Arpoador fica o Largo do Millôr. Voltado para a praia de Ipanema, sentado em um banquinho de madeira, com o cotovelo apoiado no joelho e a mão fechada apoiando a cabeça (como a escultura O Pensador, de Rodin), com uma expressão séria, o Guru do Méier dá gargalhadas da vida. Digo isso pois, diante de todas as atividades que praticou, Millôr Fernandes foi humorista. Faz parte dos artistas que construíram a magia do bairro de Ipanema. Aventurando-se também pelo esporte, Millôr se autointitulava o inventor do frescobol, esporte que não conta pontos e não tem vencedor, algo para se exercitar, passar o tempo e curtir a praia. Mas os amigos diziam que o Millôr nunca toleraria sair derrotado de uma partida. Vou terminar com um poeminha de sua autoria, que usei de legenda no meu post do Instagram: “Quem quiser, ri por último / Para rir mais certeiro / Mas eu rio primeiro / Porque Rio de Janeiro.”

  • Acordar em uma cidade pela primeira vez é como se tudo pudesse acontecer. Mesmo que, no segundo dia, comece a chover, e essa cidade tenha uma relação íntima com o sol, talvez até uma relação mais intensa, sendo quase sinônimo de sol — claro que estou falando do Rio de Janeiro.

    O Rio em dias de chuva é como uma confeitaria diet, há doces muito gostosos, porém, no fundo, falta alguma coisinha. Mas, vamos lá, não é preciso excelência no tempo para que grandes sorrisos venham à tona. Basta praticar o esporte que é o tempero da personalidade do turista: caminhar.

    Grandes cariocas ganharam a vida caminhando. O jornalista João do Rio fez do ato de caminhar a criação de sua obra. No livro A Alma Encantadora das Ruas, ele inicia dizendo: “Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que esse amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos nós.”

    Tanto por isso que, assim como em Veneza se passeia em gôndolas, o ato de caminhar no Rio é uma atração turística. E foi caminhando pela Rua do Ouvidor que cheguei a uma livraria onde havia livros do jornalista Ruy Castro autografados. O livreiro era amigo do escritor e, em poucos minutos falando sobre livros, tornou-se também meu amigo. Com isso, um dia de chuva, um dia molhado, se tornou inesquecível. Aliás, a livraria se chama Folha Seca.

  • Cantaram seu nome nos jornais como se ele fosse um titã, um semideus, uma mistura de São Francisco de Paula com Teixeirinha. Eu assino embaixo de tudo que foi escrito. Pois, sim, ele foi imenso. Gritou como um animal manso e narrou o espírito humano em toda a sua complexidade.

    Uma complexidade que não busca verdades, mas convence pela lucidez. Falar, falar, falar muitas vezes não é eficaz. No fundo, as palavras são vazias como o bolso do brasileiro, mas, quando alguém como o Luis Fernando Veríssimo as usa, ele provoca a sensação mais importante na vida: o riso.

    O humor literário raras vezes leva o leitor até a gargalhada; ele é um alimento diário que nutre. Enquanto tu lês um texto do Luis Fernando Veríssimo, tu expressa um hã-hã — simples, mas sempre epifânico.

    Há sempre algo para aprender em suas crônicas e, poderia dizer, algo para se deliciar. Um texto que tu consegues acariciar, acariciaaaar, acariciaaaaaaaar… até chegar lá. O prazer de ler é tão excitante que vou largar esse teclado e penetrar A Mulher do Silva.

  • O grande filme da minha geração estreou no Cineflix, em Pelotas. A fila para entrar na sessão estava agitada, todos querendo cumprimentar e parabenizar os realizadores, mesmo sem ainda ter visto uma cena. A ansiedade era grande; as pessoas transbordavam sorrisos, sabendo que veriam uma história emocionante.

    Quando consegui apertar a mão de Nauro Júnior, ele disse que estava tão nervoso que havia mordido o lábio. A Gabi Mazza, sempre solícita, distribuía uma centena de abraços por metro quadrado. A Sofia Mazza, estudante de jornalismo, captava cenas com uma câmera de vídeo, reforçando o ditado popular de que a fruta não cai longe do pé.

    O documentário da família mais aventureira de Pelotas apresentou uma filosofia de vida simples: a ideia de que, com amizade, é possível chegar longe, ainda mais se for embarcado em um Volkswagen Fusca. Saindo de Pelotas para conquistar a Europa de ponta a ponta e desbravar a América Latina, Nauro, Sofia e Gabi escancararam no cinema que O Mundo Cabe em um Fusca.

    Sem medo de errar, escrevo: ninguém fará um filme tão inspirador na minha geração. Durante a projeção, as pessoas olhavam atentas para a tela, com os olhos úmidos de emoção. Eu também estive de olhos marejados e, ao mesmo tempo, anotei algumas frases no meu moleskine: “O mundo é uma porção de terra na volta da palafita.”, “O sentido não é o destino final, mas o que tu vai encontrar pelo caminho.”, “O idioma dos viajantes é universal.”, “Muito sonho e pouca plata.”, “Quem tem medo de pesadelo não se permite sonhar.”, “Pra quem acredita no sonho, o impossível não existe.”.