• O Oscar vem aí para colocar a galera na torcida. Virou campeonato, quase uma Copa do Mundo. No ano passado, Ainda Estou Aqui, do diretor Walter Salles, levou a estatueta de Melhor Filme Internacional, numa noite de premiação em pleno Carnaval. Que festa. O filme extrapolou a sala de cinema e se consolidou como símbolo na cultura pop. E, falando em cultura pop, desde que a tecnologia possibilitou que as pessoas opinassem nas redes sociais, os brasileiros estiveram lá.

    “Please, come to Brazil” foi uma das primeiras ações de internautas brasileiros nas páginas de artistas estrangeiros, convidando-os a vir ao país para fazer shows. Um vomitaço, como chamavam essas ações. Algumas deram certo. Outras foram bem inconvenientes. O ponto é que o Brasil é um dos líderes globais em consumo nas redes sociais, isso desde o tempo do Orkut. Não é uma liderança muito desejada, mas produz efeitos em disputas simbólicas.

    Em artigo publicado na The New Yorker, na sexta-feira (20.fev.), o crítico Michael Schulman observa que o Oscar deixou de ser uma premiação do cinema americano e se tornou uma competição global. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas incluiu novos membros, ampliando a diversidade racial e geográfica. Foi uma pressão dos novos tempos que partiu, principalmente, de manifestações nas redes sociais.

    Quando a live no Instagram da Academia entrou no ar para transmitir os indicados ao Oscar 2026, o conteúdo nem havia começado, e os comentários estavam tomados por emojis com bandeirinhas do Brasil. A internet brasileira reafirma, assim, uma vocação: pode-se discutir método, exagero ou estratégia, mas, em matéria de torcida — organizada ou espontânea —, a galera também sabe ocupar a arquibancada digital.

  • Estava batendo os chinelos em frente ao prédio do extinto vespertino A Opinião Pública. No meio da rua, uma guria fumava um cigarro com luvas de veludo, enquanto o Mickey e a Minnie se beijavam ao seu lado. Bundas dentro de maiôs coloridos e contornadas por meias-calças arrastão pulavam sobre o paralelepípedo. Torsos nus desfilavam o resultado dos treinos da academia. Uma mãe fazia a foto do seu filho ao lado da alegoria do Jacaré da Lagoa. A Quinze de Novembro exalava o perfume de suor e cerveja característico desse período momesco.

    No Carnaval, o riso confronta a autoridade, o exagero está geladinho dentro de copos Staley e os corpos estão propícios a se encontrarem. É o tempo fora do tempo, um êxtase coletivo em culto à felicidade. Dava para ver no rosto das pessoas a liberdade das amarras cotidianas. E, influenciadas pela batucada, a galera se jogava nos braços da algazarra e se deixava levar pela marcha da bateria. Eu reparei que o ritmista do surdo estava muito empolgado. Tocava o tambor com a mesma responsabilidade de um coração bombeando sangue. Vendo ele bater num couro sintético verde, lembrei da história dos Bambas do Estácio.

    Os Bambas do Estácio foram uma turma que, além de valentes, alegres, safos e, se preciso, perigosos, eram compositores requisitados no Rio dos anos vinte. Lá por 1927, eles criaram o bloco chamado Deixa Falar. Naquela época, os blocos desfilavam em direção à Praça Onze, no centro do Rio, onde disputavam com blocos de outros bairros um torneio de samba. Mas não raro, ao se cruzarem na rua, as coisas terminavam em briga e envolvimento com a polícia. E, quando se metia autoridade no meio, não era bom pra quem tinha ofícios pouco ortodoxos. Logo, para contornar os pega-pra-capa, a turma do Estácio decidiu que o Deixa Falar teria uma denominação que inspirasse respeito, e se tornou uma escola de samba.

    A Escola de Samba Deixa Falar, no carnaval de 1928, desfilou como se fosse uma opereta: com enredo, fantasias de luxo, carro abre-alas, uma dupla de mestre-sala e porta-bandeira, divisão em alas (incluindo a de baianas), e cores oficiais (vermelho e branco). Elementos que já existiam no carnaval, mas nunca tinham sido apresentados juntos e em composição. A admiração do povo foi avassaladora. O samba também soava diferente, langoroso, com o ritmo firmado por uma grande lata de banha, com a boca coberta por um couro de cabrito esticado. No meio de tanta inovação, nascia também o surdo.

  • Já faz um bom tempo e, de certa forma, ainda era a aurora da nossa identidade como país. Numa época em que, em qualquer rendez-vous, era preciso saber savoir-faire. Ou, ia-se a um debut no teatro assistir a um mise-en-scène. Isso nos idos do século dezenove, quando nosso dialeto estava tomado por francesismos e anglicismos que, apesar de serem um modo chic de se comunicar, para o gramático e latinista Antônio de Castro Lopes, soavam como um desaforo.

    Castro Lopes foi o precursor de um dos grandes personagens da literatura brasileira, Policarpo Quaresma: lembra dele? No livro de Lima Barreto, Policarpo sugeriu, na Assembleia Legislativa, a adoção do tupi como língua oficial, quando o conceito de reparação histórica ainda era algo pré-cambriano na política brasileira.

    Todavia, o Castro Lopes não tinha o mesmo verniz do Policarpo Quaresma. A sua indignação era contra as palavras estrangeiras que, a seu ver, estavam contaminando a língua pátria. No seu livro Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis, ele vai propor: “limpar a linguagem vernácula de vozes bárbaras e criar bons termos que no idioma português faltem para traduzir os exóticos”.

    Ou seja, Castro Lopes vai se dedicar a criar palavras novas para substituir as estrangeiras. Mas, vejam só, muitas palavras estrangeiras não eram traduções com o mesmo significado, tipo: love = amor. Algumas palavras representavam invenções nomeadas naquele país. Assim, Castro Lopes vai propor a substituição de: chofer por cinesífero; abajur por lucivelo; anúncio por preconício; cachecol por castelete; turista por ludâmbulo; repórter por alvissareiro; futebol por ludopédio; peignoir por roupão; e menu por cardápio.

    Por mais excêntricas que pareçam, algumas estão aí até hoje.

  • A ideia de diversão sempre esteve acompanhada de bebida. E, na diversão, nunca existiu o beber socialmente. Ficar bêbado sempre foi a meta da felicidade. “Na minha casa / todo mundo é bamba / todo mundo bebe / todo mundo samba”, cresci ouvindo. Ou ainda: “Amigo eu nunca fiz bebendo leite / amigo eu não criei bebendo chá”, cantou o Zeca. E vamos lá, concordo que beber é realmente prazeroso. Acontece que existe uma romantização da bebida, que vai transformando o prazer de beber, em momentos de festa, num refúgio para qualquer eventualidade.

    A publicidade dá um empurrãozinho nessa romantização, principalmente, pela publicidade de cerveja. Conseguiu-se quase zerar, dos veículos de comunicação, os anúncios de bebidas destiladas e fermentadas. Agora, a cerveja, de certa forma, é ungida culturalmente. Isso cria um sentimento de pertencimento nas pessoas, e o prazer da bebida se torna algo “merecido”. Se estou cansado, bebo. Se estou feliz, bebo. Se está calor, uma cervejinha. Se está frio, uma taça de vinho. E, se faltar, o Zé Delivery entrega na porta de casa.

    Não estou aqui querendo pregar moral de cuecas. Inclusive, vou tomar a minha cervejinha logo mais. O que me fez chegar nesse assunto foi ter assistido ao trailer do filme (Des)controle. Protagonizado pela atriz Carolina Dieckmann, o filme mostra a história de uma escritora que volta a beber depois de anos e vive, mais uma vez, essa tão conhecida tragédia do alcoolismo. Uma doença que pode começar com um Corote mal gelado ou com um Royal Salute servido em cristal.

    Assim como ganhei amigos bebendo, um grande amigo se afastou por entender que a relação com a turma sempre acabava nos bares. Ele estava certo. Espero que esteja passando bem. Ver histórias que mostram onde o excesso pode levar é importante para a conscientização. (Des)controle estreia dia 5 de fevereiro. É um filme interessante para assistir nesse ano.

  • No Largo do Mercado, um gurizinho, quase engolido pela tuba, inflando as bochechas, tentava arrancar os primeiros sopros do instrumento. Isso na concentração do cortejo de abertura do 14º Festival Internacional SESC de Música, onde a junção de profissionais, alunos e amadores tocando pelas ruas dá início a um período de riqueza cultural inigualável.

    Presente no cotidiano, a música impacta as pessoas sem pedir licença. Pode ser a mulher com tailleur impecável, apressada para um compromisso de trabalho; aquele aposentado no banco do calçadão que fica vendo Only Fans; ou o adolescente que arrasta o All Star, imerso na curadoria do seu algoritmo. Não há como escapar: a paisagem sonora está nas calçadas, restaurantes, cafés, igrejas e, inclusive, em supermercados.

    Mas até agora não soube de ninguém querendo escapar das performances musicais. Pelo contrário, nesses dias de festival, há um aumento significativo de arrepios na espinha, deslumbramentos, admiração, fascínio, surpresa, euforia, alegria e, uma certa doce melancolia, ao ficar exposto a tanta beleza. Imersa na arte musical, a população vive uma educação sentimental.

    São quatorze edições do festival em que a cidade experimenta essa explosão sensorial coletiva. A música de concerto já foi incorporada por pessoas em todas as camadas e matizes sociais. Pelotas está preparada para ter a sua própria orquestra sinfônica. E, no futuro, aquele gurizinho dos primeiros sopros talvez possa dizer, assim como disse o Erico Verissimo: “Eu venho de uma cidade que tem uma orquestra sinfônica’’.

  • Ir à praia é tão bom quanto pão quentinho. Agora, pão quentinho depois da praia é melhor ainda. O mar cansa como uma maratona e o beque dá uma larica oceânica. No chuveiro do camping, tu entende o que é água doce. Na frente da barraca, vou recheando o cacetinho com a mão mesmo, e os farelos vão caindo na raiz da árvore. A namorada segue colocando pós-sol nos seios depois de uma tarde de topless.

    Nada parece urgente. O céu em lusco-fusco está naquele momento em que o tempo parece desacelerar. Só o que importa é observar as cores. Há algo de triste e romântico na beleza do entardecer. Sinto que estou feliz, feliz e com calor. Como é bom sentir calor após um inverno rigoroso. O camping parece viver um momento de ócio. Até que um motoboy soa um tantinho estranho quando entra vestindo roupas de chuva e capacete, parecendo um Power Ranger carregando um saco de gelo.

    O vizinho da barraca mais adiante segue bebendo seu uísque, agora um pouco mais gelado. Crianças pedalam, apostando corrida até o portão. Um senhor de bigode branco leva seus espetos de churrasco na direção do tanque. Vestido apenas de sunga, um jovem chega carregando um saco de carvão numa mão e sacolas do supermercado na outra. As cores do céu vão ficando mais desbotadas. Alguém acende uma lâmpada.

    A namorada já está penteada e maquiada. Uma beleza queimada de sol resplandece no seu rosto. Linda, linda, com um ar selvagem fora do cotidiano. Saímos para jantar, mas antes passamos na pista de skate. Estávamos em cima da rampa quando a lua cheia apareceu intensamente iluminada, dando um efeito transcendental a esse dia no litoral.

  • Nesses últimos dias do ano, a galera costuma mostrar a retrospectiva das suas leituras. Sempre rola de pegar nessas listas alguma dica para a próxima ida à livraria, mas também dá uma pitada de angústia por não ter conseguido ler aquele lançamento tão bem falado. Sempre haverá mais livros para ler do que tempo. Certamente, tu sabes escolher qual é o mais apropriado.

    Como entramos nessa vibe de retrospectiva, gostaria de comentar sobre um livro e um filme que fizeram a minha cabeça. Ambos vêm da mesma fonte, uma fonte que completou cem anos em 2025. Quando o assunto é jornalismo literário, é a precursora. Claro que estou falando da minha, da tua, da nossa: The New Yorker Magazine.

    Ainda lá por janeiro, onze meses antes do Natal, a Editora Carambaia presenteou os leitores brasileiros com o livro Sempre Repórter – textos da revista The New Yorker, da Lillian Ross. Com muitas ideias para os amantes da arte da reportagem, esses textos inéditos em português trouxeram, pelo menos para mim, insights, epifanias e uma ideia mais ampla de quanto a revista se preocupa não apenas com o assunto, mas, principalmente, em publicar textos bem escritos.

    Já o documentário The New Yorker at 100, lançado em dezembro na Netflix, dá luz, câmera e ação à imaginação dos leitores. A equipe do cineasta Marshall Curry mostra o cotidiano dos profissionais, uma turma com muito estilo e personalidade. Mesmo que haja um papo sobre como fazer a revista não parecer antiquada, ao olhar as cenas, tu percebe que nada daquele andar no World Trade Center parece antiquado. Depois de assistir ao filme, até fixei no Instagram uma foto em que apareço lendo a revista.

  • O Xavante entrou em campo calçando as chuteiras da humildade, respeitando o adversário após o empate na primeira partida, mas não deixou eles se criarem. Desde o início do jogo, assumiu a postura de um Hércules frente aos seus doze trabalhos, avançou feito legiões romanas atacando bárbaros e, encarando o Aimoré como o exército persa do rei Xerxes, os onze de camisa rubro-negra jogaram com uma garra espartana de alma castelhana.

    O 2×0 no primeiro tempo criou o ambiente para o momento mais sagrado na vida do torcedor, ver o seu time ser campeão. É um instante mágico em que tudo se transforma em alegria. Ao meu lado na arquibancada, teve pai abraçando o filho com força, genro que beijou a sogra, e esposa que se viu tão alegre que precisou mandar um WhatsApp pro amante, e estava tudo certo. Tudo é felicidade quando tu pode estufar o peito e gritar: É campeão, é campeão…

    E o ruído ensurdecedor que se formava entre aquelas milhares de almas dava ao Bento Freitas uma grandiloquência de ópera. Nem um Andrea Bocelli, nem um Pavarotti têm o pulmão tão forte para gritar como gritou o torcedor xavante. Eram bocas pretas, brancas e amarelas, em algumas, visivelmente, faltavam alguns dentes. Mas esse detalhe ortodôntico ajudava o grito a sair da boca, extrapolar as arquibancadas e ecoar pelas ruas da cidade.

  • O novo bamba do conhecimento é o ChatGPT. Há inúmeros artigos na imprensa dando a máquina como insuperável, um sabichão que guarda milhares de terabytes de conhecimento e os computa em segundos. Alguns já têm como certo que os escritores logo-logo levarão um 7×1 da inteligência artificial, eu ainda tenho algumas dúvidas.

    Num dia desses iniciei o teste de Turing com o ChatGPT, e fui direto a parte que me toca, sem cumprimentos, pedi que ele escrevesse uma crônica sobre o Café Aquários: “O café Aquários é uma instituição nesta pequena cidade mineira. Fundado há mais de 50 anos, o estabelecimento é o ponto de encontro favorito dos moradores locais, que se reúnem lá para tomar um cafezinho e bater um papo descontraído”, disse a I.A.

    Essa redação entregue por um aluno que está se esforçando para fazer a quarta série forte, se a professora bocejar na leitura, o ChatGPT passa com média. Lembrei agora de uma história: a da tradução do romance Ulysses feita pelo Antônio Houaiss. Era como se tu ligasse pra falar com o James Joyce e o Antônio Houaiss não saia da linha. À boca miúda, diziam que o maior dicionarista do Brasil conhecia todas as palavras, mas não conseguia juntá-las.

    Brincadeiras à parte, o gerador de texto da OpenAI é uma ferramenta surpreendente. Ainda são textos recheados de lugares comuns, mas logo ele vai se aprimorar, aí é que são elas. Uma coisa que a I.A. não vai conseguir tão cedo — é a experiência humana, ela pode até descrever o gosto do cafezinho do Aquários, mas não consegue queimar os beiços na xicrinha pelando de quente.

    24/04/2023

  • O travessão sempre foi um sinal de pontuação que se apresentava de terno e gravata, usado por escritores com estilo sofisticado. Hoje em dia, ele está ameaçado de vestir roupa listrada, tipo as dos presídios americanos. Usá-lo virou sinônimo de cópia de textos escritos por inteligência artificial, uma espécie de literatura fast-fashion. Nos livros, ele ainda se apresenta de traje social, o leitor confia na curadoria da editora. Mas, em textos da internet, quando aparece um travessão, a primeira coisa que vem na cabeça é o ChatGPT.

    Mesmo que o escritor seja um laureado, um alfaiate do abecedário, assim que vemos o travessão na frase, a pulga atrás da orelha começa a roçar. Tanto que, esses dias, caminhando pra casa, reparei numa pixação que dizia: “Entre o caos e o céu — eu passo”. Nunca tinha visto pixo com travessão, isso só pode ser frase criada com IA.

    A palavra travessão deriva de “travessia”, que significa a ação de atravessar uma região, um continente ou uma era. Nessa era da inteligência artificial, o travessão se tornou a roupa que estamos vestindo para ir à festa da hiper-realidade. Mas por que a inteligência artificial usa tanto esse sinal? Talvez pelo fato de muitos dos textos usados para treiná-la terem o travessão como sinal de estilo.

    É aí (ou IA?) que começa o enrosco. Muitos dos textos usados para treinar as inteligências artificiais vem de jornais que não liberaram o seu conteúdo. Se você perguntar para uma IA: qual é a manchete da Folha de São Paulo de hoje?, ela vai furar o paywall do jornal e te dar um resumo da matéria, às vezes até na íntegra. Mais constrangedor é que o texto vem com travessão em frases em que ele não aparecia no original. Além de não respeitar os direitos autorais, costura o travessão no texto alheio. A Folha de São Paulo não deixou por menos, processou a OpenAI e quer que o travessão, definitivamente, vista roupas listradas.