Certo dia, no adolescente século XIX – 1826, 1827, por aí –, o francês Joseph Niépce colocou uma câmera escura em frente à janela do segundo andar de sua casa. Dentro da câmera, havia uma placa metálica besuntada em um produto químico chamado betume da Judeia. Como Niépce já tinha habilidade no métier, não deixou de conferir a estabilidade do tripé e checar a formação de nuvens perto do Sol. Com tudo pronto, tirou o protetor da lente e deixou que a luz entrasse por cerca de oito horas na câmera. Depois desse experimento, o mundo nunca mais seria o mesmo.
A “Vista da janela em Le Gras’’ é considerada a primeira imagem permanente produzida a partir de uma câmera escura. Nos anos seguintes, outros pioneiros avançaram nessas experiências. O inglês William Talbot e o franco-brasileiro Hercule Florence chegaram quase lá, mas, isolados em seus laboratórios, não divulgaram de imediato suas descobertas.
Foi o francês Louis Daguerre, cupincha de Niépce nas pesquisas, que tornou conhecida a nova técnica. No dia 19 de agosto de 1839, em uma sessão superlotada da Academia de Ciências da França, em Paris, foi feita apresentação pública do daguerreótipo. O processo, que levava o nome de Daguerre, havia produzido imagens como a do “Boulevard du Temple’’ e rapidamente virou uma febre, com manuais sobre como fazer daguerreótipos traduzidos em dezenas de idiomas e enviados ao mundo todo.
Ainda assim, para capturar boas imagens naquele período, era preciso ter uma têmpera de cientista. As composições químicas eram tão inusitadas quanto misturar uísque, energético e gelo de coco. Ao passo que foi na segunda metade do século XIX, com equipamentos mais aprimorados, que a bem-sucedida arte do retrato produziu um efeito transformador.
A possibilidade de fazer retratos fiéis, com rapidez e poucos gastos, permitiu às pessoas guardarem suas imagens e revê-las décadas depois. Claro que os pintores também faziam retratos, mas, na imagem fotográfica, permaneciam o olhar, as olheiras, as rugas, as cicatrizes, as papadas, os cabelos hirsutos… Ou seja, você no tempo passado, cuspido e escarrado.
Com isso, a fotografia criou a memória visual íntima. No ato solitário de segurar uma foto, a imaginação nos transporta imediatamente àquele instante e, dependendo da intensidade da emoção, é possível resgatar as conversas, as risadas, as lágrimas, os sabores e os cheiros. Mesmo que hoje as pessoas fiquem horas scrollando por diferentes linguagens visuais: nenhuma imagem é contemplada tão atentamente quanto a fotografia de nós mesmos, de nossos parentes próximos, de nossos seres amados.
Agora, passados dois séculos do experimento de Niépce, não basta viver, é preciso fotografar. Os passeios, os looks, as unhas, o pão, o bolo, o café, o prato do jantar, a lavagem do carro, o corte de cabelo, as pinturas, os livros e, inclusive, esse texto: tudo é feito para terminar em uma fotografia.
Publicado no jornal A Hora do Sul em 19/08/2026

Deixe um comentário