O ano era 2012. Estava procurando algo novo para ler na Livraria Vanguarda quando encontrei o livro Lero-lero, do Cacaso, da coleção Cosac Naify Portátil. Até então, eu não conhecia o autor. O que me levou a comprar o livro foi o título coloquial, o design da capa e o hype da editora.

Depois de ler um pouco do livro, fui pesquisar sobre o Cacaso na internet e descobri que ele fazia parte de um movimento de poetas dos anos 1970 chamado Geração Mimeógrafo, e que os trabalhos desse grupo também ficaram identificados como Poesia Marginal.

Não lembro exatamente quando li pela primeira vez o nome de Ana Cristina Cesar. Mas lembro com nitidez do que senti ao vê-la, no YouTube, lendo o poema Samba-canção:

Tantos poemas que perdi

Tantos que ouvi, de graça,

pelo telefone – taí,

eu fiz de tudo pra você gostar,

fui mulher vulgar

meia-bruxa, meia-fera,

risinho modernista

aranhando na garganta,

malandra, bicha,

bem viada, vândala,

talvez maquiavélica,

e um dia emburrei-me,

vali-me de mesuras

(era uma estratégia),

fiz comércio, avara,

embora um pouco burra,

porque inteligente me punha

logo rubra, ou ao contrário, cara

pálida que desconhece

o próprio cor-de-rosa,

e tantas fiz, talvez

querendo a glória, a outra

cena à luz de spots,

talvez apenas teu carinho,

mas tantas, tantas fiz…

O vídeo da Ana Cristina Cesar me apresentou uma poeta rebelde, mas de uma rebeldia elegante e, sobretudo, uma rebeldia inteligente. Havia, na figura dela, uma malandragem, mas uma malandragem que nasce da prática íntima do ofício, de quem domina a linguagem sem precisar ostentá-la. Imaginei uma intelectual fora dos limites formais da academia, alguém cuja inteligência parecia surgir naturalmente da curiosidade. Ela ia lendo o poema com rimas e ritmo de canção. E, antes mesmo de compreender o conteúdo do poema, cantarolei fragmentos sonoros dos versos. Foi um sentimento de liberdade através da poesia. Acredito que eu possa ter sentido um impacto artístico que a crítica Heloísa Teixeira chamou de “Efeito Ana C.”.

No prefácio do livro 29 Poetas Hoje, Heloísa Teixeira escreve que tudo começou com Ana Cristina Cesar. Esse ponto de partida refere-se à influência poética, à figura estética e à trajetória de vida da autora. Entre depoimentos de poetas contemporâneas, repete-se quase de forma unânime a percepção de que o encontro com a obra da Ana Cristina proporcionou uma experiência transformadora. Ao discutir a relação entre poesia-feminino-feminismo na verve da autora, Heloísa Teixeira evidencia o desagrado de Ana Cristina diante da postura de críticos homens que enquadraram a produção poética feminina numa categoria limitadora de “poesia de mulher”. Trata-se de uma definição que, para Ana Cristina, era rasa e romântica, romântica num sentido ingênuo. Esses críticos classificaram essa “poesia de mulher” como: “uma poesia do sensível, do inefável e do tênue, uma poesia que privilegia o pudor, o velado e o inviolado”.

Ana Cristina procura construir uma poética que inverte esses pressupostos bem-comportados atribuídos à linguagem feminina. Assim, ela escreveu: “Onde se lia flor, luas, delicadeza e fluidez, leia-se secura, rispidez, violência sem papas na língua. Sobe à cena a moça livre dos bons costumes: a prostituta, a lésbica, a masturbação, a trepada, o orgasmo, o palavrão, o protesto, a marginalidade.”

Inserida em um contexto histórico em que a circulação alternativa da poesia se apresentava como a opção mais viável para os novos poetas, nos anos 1970, os mimeógrafos começaram a rodar porque a produção de livros era cara e fortemente controlada. Os livros mimeografados eram vendidos de mão em mão, em bares, universidades e encontros culturais. Nessa prática, os poetas encontraram uma forma de expressão e de liberdade criativa.

Os poetas dessa geração encontravam-se à margem não apenas das instituições editoriais e culturais, mas também dos modelos estéticos e políticos predominantes, pois experimentavam uma nova forma de subjetividade. Em vez do discurso revolucionário coletivo da década de 1960, suas obras passaram a privilegiar a experiência individual, incorporando o corpo, a sexualidade, os afetos e o cotidiano como dimensões políticas. Assim, no lugar do poeta engajado, emerge o poeta da experiência, atento às micropolíticas da vida diária e à esfera privada como espaço possível de resistência.

Dentro desse cenário estético, no poema Samba-canção, é possível reconhecer as características da poética construída por Ana Cristina Cesar. O texto revela um eu lírico capaz de assumir uma diversidade de identidades femininas. O verso “eu fiz de tudo pra você gostar” funciona como uma chave de leitura, sugerindo, num primeiro olhar, uma tentativa de conquistar o amor ou sustentar uma paixão.

Entretanto, as múltiplas personas que o eu lírico afirma encarnar, “fui mulher vulgar / meia-bruxa, meia-fera, / malandra, bicha, / bem viada, vândala, / talvez maquiavélica”, ultrapassam a ideia de simples conquista amorosa. Há, nesses versos, um humor ácido e uma forte dose de ironia que desmontam os estereótipos associados ao feminino.

Samba-canção é construído por movimentos discursivos de acumulação identitária e por certas aliterações, elaboradas em uma linguagem performática. Performática, aqui, no sentido de incorporar elementos da cultura popular. Além de funcionar como chave para a exposição de uma série de personas femininas, os versos “[…] — taí, / eu fiz de tudo pra você gostar” são uma colagem da canção Pra você gostar de mim, do compositor Joubert de Carvalho, sucesso internacional na voz da cantora Carmen Miranda.

Além das questões temáticas, o poema não apresenta uma estrutura métrica fixa: é composto por versos livres, que variam entre cinco e dez sílabas poéticas. Lembrando que o verso livre ganhou destaque na literatura brasileira a partir do movimento modernista. E, como relata o amigo e biógrafo Ítalo Moriconi, Ana Cristina era leitora atenta de poetas e críticos paulistas.

Retomando minha própria experiência de leitura, durante a disciplina Escrita Feminina na Poesia, assistimos a um vídeo em que a crítica Heloísa Teixeira relata ter conhecido Ana Cristina Cesar pela leitura de seus textos, isto é, por meio do encontro direto com o poema escrito. Esse depoimento provocou uma comparação inevitável com a minha descoberta da autora, mediada pela cultura digital.

Essa reflexão conduz a uma questão contemporânea: hoje, o primeiro contato com a poesia frequentemente ultrapassa a página impressa, chega-nos pela voz, pela imagem, pelo gesto dos poetas que divulgam seus poemas na internet. Pergunto-me, então, se a leitura silenciosa do poema teria produzido em mim a mesma impressão inicial. Assistir ao poeta, observar sua presença, seu modo de vestir, sua entonação e sua forma de dizer o poema talvez configure, na contemporaneidade, uma via de acesso à poesia, capaz de ampliar o alcance e conquistar novos leitores.

Nesse contexto de mediação pela imagem, no vídeo em que Ana Cristina lê seu poema, o enquadramento mostra apenas o busto da poeta, mas, ainda assim, é possível perceber a construção cuidadosa de sua presença cênica. A roupa branca que veste estabelece um contraste evidente com o fundo mais escuro, produzindo um efeito de luminosidade. Esse jogo visual contribui para a criação de uma imagem de clareza e centralidade, quase como se a voz poética emergisse iluminada no espaço da gravação.

Os brincos dourados e os óculos de aros igualmente dourados reforçam uma elegância discreta, compondo uma identidade visual que combina sofisticação e informalidade intelectual. Esses elementos ajudam a construir uma persona autoral que ultrapassa o texto escrito, pois a recepção do poema passa também pela percepção do estilo e da presença da poeta.

O vídeo inicia com a autora anunciando o título do poema: “Esse aqui chama Samba-Canção”. Enquanto lê os primeiros versos, percebe-se em sua expressão um sorriso de contentamento, quase cúmplice, como se compartilhasse com o público a intimidade daquele instante de leitura. À medida que avança, porém, o seu rosto torna-se mais sério. A mudança sugere um deslocamento da leveza inicial para uma concentração mais intensa, necessária para a transmissão das camadas afetivas e reflexivas do poema.

Próximo ao desfecho, a câmera fecha gradualmente o enquadramento, aproximando-se do rosto da poeta em um plano quase 3×4. Essa aproximação intensifica a sensação de intimidade e coloca o espectador diante da experiência viva da enunciação poética. Assim que concluí a leitura, ela abre um sorriso largo, um gesto que parece reunir satisfação e consciência do próprio ato criativo. Não se trata apenas de um sorriso de prazer, mas de uma afirmação existencial: a alegria de quem reconhece o sentido de fazer aquilo que ama e de ter produzido um trabalho potente.

É justamente nesse momento final do vídeo, nesse sorriso após a leitura de Ana Cristina Cesar, que vemos uma realização da própria existência, como se o poema continuasse reverberando na sua felicidade. E, no limite desse gesto, se tu estiver atento, é possível ouvir ecoar o “risinho modernista / arranhado na garganta”.

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