Fazia algum tempo que eu não sonhava. Quando consigo lembrar de um sonho, é porque dormi durante a tarde. Em gauchês, isso significa dar uma sesteada. Agora, para que esse fenômeno aconteça, é preciso ter a tarde livre. Aí sábado, depois de um almoço reforçado na Nave, caminhei num friozinho de nove graus, cheguei em casa e o sol estava entrando pela janela do quarto. Foi inevitável.
O sono foi tão profundo que meu inconsciente parou num lugar onde tudo era estranho. Não reconhecia nada, era como estar em um planeta remoto. Senti um medo parecido com o que tive assistindo Interestelar. Aos poucos, relaxei. E me veio uma vontade de nomear as coisas.
Para um objeto pontiagudo, dei o nome de “Kikira”. E o nome de “Boubaunda” para outro mais arredondado. Parecia lógico. Um objeto de linhas retas merece um nome mais pontudo, assim como um objeto com curvas, um nome mais bojudo.
Sei que isso vai contra uma vaca sagrada da linguística, já que Saussure estabeleceu por a+b, que não existe relação natural entre palavra e objeto. Convenhamos: o sonho é o parquinho da imaginação, onde tudo é possível. Assim, acordei e lembrei dela: “Seu beijo, seu texto / Seu queixo, seu pelo / Sua coxa”. Como ela ainda parece além da imaginação, levantei e fui ler um livro.

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