No terceiro ano, suas vidas tomaram caminhos diferentes. No melhor sentido da palavra, eles terminaram o namoro. Terminaram por causa de uma próclise, quando ele teve a infeliz ideia de escrever “me beija” no caderno novo dela. O problema é que aquele caderno era um Cícero de capa dura que ela havia comprado para escrever seu último trabalho da escola. Um caderno que ela procurou por alguns meses e ficou feliz em ter encontrado por acaso na papelaria. Aí, quando ela viu a anotação na primeira página, disse a ele que uma frase nunca se inicia com pronome oblíquo. E a coisa deu no que deu.
Tinha sido o primeiro namoro firme dos dois. Descobriram um no outro prazeres que nunca haviam trocado com ninguém. Às vezes, iniciavam uma conversa com a pergunta: “Onde tu parou?”. E ele respondia coisas como: inhame, inhaca, Inhaúma, Inharé, e dizia essas palavras com uma nasalização forte. Contava que “inha” não existe como uma raiz estável, que era mais um núcleo fonético recorrente do que uma raiz semântica fixa. E ela ria dele repetindo “inhame”, forçando uma careta, como se fosse fanho. E se divertiam abrindo palavras, contando sílabas, descobrindo etimologias que os levavam a histórias longínquas e a línguas mortas das quais eles não reconheciam sequer uma única vogal.
Certa vez, eles deram para ler frases de trás para frente, tentando achar palíndromos. Mas o exercício se mostrou um pouco chato para uma sexta-feira e, quebrando o silêncio, numa reação inesperada, ela se pôs a ler um soneto. Um soneto que falava do entardecer, do modo como a terra engole o sol, de como o escuro vai cobrindo o azul do céu, até o momento em que a noite abraça as pessoas com um suspiro propício para encontros demorados. Um soneto que ela mesma havia escrito e no qual era possível entender que falava sobre a natureza. Mas a sua entonação teatral, desdobrando as palavras, com os lábios umedecidos e gemidos de prazer, encheu o ambiente de erotismo. E os dois se entregaram ao desejo tomados pela descoberta.
Passaram, então, a usar poemas como um artifício sexual. Leram elegias de Vinicius de Moraes, baladas de Pablo Neruda e, numa tarde de verão, tentaram ir direto ao ponto com Bocage. Mas, se o poema falasse de sexo, ficava sem graça. Interessante era a interpretação voluptuosa dos versos. Logo consumiram tanta poesia que perceberam precisar de uma substância mais forte. Quando passaram para a prosa, leram capítulos inteiros de Dona Flor e Seus Dois Maridos, passagens deliciosas de James Baldwin e, numa noite de inverno, iam quase terminando a primeira parte de Os Detetives Selvagens. O fato é que toda aquela leitura os aquecia como se as palavras estivessem em brasa, e seus corpos ficavam enroscados por um tempo sem fim.
Foi uma fase de descobertas em suas vidas. Porém, a cada dia, o sol transmite um calor diferente. Quando ocorreu o episódio do caderno, eles já sabiam que algumas vírgulas estavam fora de lugar e que alguns versos iam mancos. No dia em que se despediram, os dois choraram juntos, prometeram não se esquecer daqueles momentos e deram um beijo de língua.

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