• Todas as vezes que fui ao Largo do Mercado, havia gente vendo as fotografias da exposição Memorial das Águas. Alguns olhavam de longe, outros paravam e analisavam as imagens uma por uma, lendo as legendas e procurando entender as histórias. Essa é a quarta exposição do projeto, intitulada Gratidão, que relembra, em fotografias, a maior tragédia ambiental da história do Rio Grande do Sul.

    A fotografia é uma troca de olhares. O espectador é atingido pelo seu conteúdo, sem tempo para se defender. A fotografia é uma linguagem que, nesses tempos de ultra velocidade das informações, consegue chamar a atenção para temas sérios. Poucos parariam, digamos, por 15 minutos, para assistir a um documentário audiovisual sobre uma tragédia. A fotografia proporciona às pessoas refletirem sozinhas, no seu tempo, fazendo a leitura de acordo com a sua vivência.

    O fotógrafo é um ilustrador da história. Esses profissionais estudam, praticam por anos, investem em equipamentos necessários e, muitas vezes, correm riscos para conseguir captar um fato importante. Chegamos agora a um comentário que é triste: há uma desvalorização dos profissionais da fotografia. É também uma desvalorização de mercado, mas, quando ela chega ao nível comportamental, torna-se algo desrespeitoso.

    Não há quem trabalhe no ramo e não tenha ouvido algo do tipo: “Tu faz umas fotinhos pra mim?” ou “coisinha simples”, como se o fotógrafo estivesse sendo convidado para um piquenique, e não para trabalhar. Ou ainda mais invasivo: “Tu não quer dar uma força?”, situações que diminuem o trabalho do profissional. Mas, nesses tempos de redes sociais, há ainda uma situação pior, quando alguém quer usar a tua foto e acredita que dar os créditos é suficiente. A frase: “Eu coloco teu @” virou a expressão representante da desvalorização criativa.

  • Após publicar no Instagram fotos da minha última viagem, alguns amigos me disseram que eu fui ao Rio de Janeiro para fotografar estátuas. Na verdade, eu fui atrás de inspiração para escrever. As estátuas que fotografei são uma consequência da vida literária, tanto da minha vida literária quanto da vida dos literatos que admiro e que estão homenageados em bronze nas ruas da cidade.

    Clarice Lispector está de costas para a praia de Copacabana, num ponto em que é possível enxergar a extensão entre o Leme e o Pontal. Seu olhar ignora a paisagem, como se seus pensamentos fossem mais inspiradores do que o mar. Segurando um livro, com seu companheiro, o cachorro Ulisses, deitado ao lado, ela reflete sobre sua escrita. E como eu sei que ela está pensando sobre escrita? Olha o que diz na placa de identificação: “Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra.”

    Agora, o prosador carioca mais popular de todos os tempos caminha por uma calçada da Rua Barata Ribeiro, no meio urbano de Copacabana. Entre os bares e botequins, onde o chope rola solto e as histórias da vida alheia e as partidas de futebol são discutidas como as questões fundamentais da filosofia do povo brasileiro, a coluna “A Vida Como Ela É’’ foi um fenômeno no letramento dessas redondezas. Há boatos — boatos não, eu acredito que foi verdade — de que pessoas que não sabiam ler compravam o jornal e pediam para alguém ler a coluna para elas ouvirem. Nelson Rodrigues foi um escritor que causou interesse até em quem não sabia ler. Claro, o real motivo era ficar por dentro da última história de adultério, em que os personagens tinham muitas semelhanças com os moradores do bairro, e se dizia que o Nelson recebia essas histórias em primeira mão, à boca miúda, e as usava para criar suas crônicas para o jornal.

    No pé da Pedra do Arpoador fica o Largo do Millôr. Voltado para a praia de Ipanema, sentado em um banquinho de madeira, com o cotovelo apoiado no joelho e a mão fechada apoiando a cabeça (como a escultura O Pensador, de Rodin), com uma expressão séria, o Guru do Méier dá gargalhadas da vida. Digo isso pois, diante de todas as atividades que praticou, Millôr Fernandes foi humorista. Faz parte dos artistas que construíram a magia do bairro de Ipanema. Aventurando-se também pelo esporte, Millôr se autointitulava o inventor do frescobol, esporte que não conta pontos e não tem vencedor, algo para se exercitar, passar o tempo e curtir a praia. Mas os amigos diziam que o Millôr nunca toleraria sair derrotado de uma partida. Vou terminar com um poeminha de sua autoria, que usei de legenda no meu post do Instagram: “Quem quiser, ri por último / Para rir mais certeiro / Mas eu rio primeiro / Porque Rio de Janeiro.”

  • Acordar em uma cidade pela primeira vez é como se tudo pudesse acontecer. Mesmo que, no segundo dia, comece a chover, e essa cidade tenha uma relação íntima com o sol, talvez até uma relação mais intensa, sendo quase sinônimo de sol — claro que estou falando do Rio de Janeiro.

    O Rio em dias de chuva é como uma confeitaria diet, há doces muito gostosos, porém, no fundo, falta alguma coisinha. Mas, vamos lá, não é preciso excelência no tempo para que grandes sorrisos venham à tona. Basta praticar o esporte que é o tempero da personalidade do turista: caminhar.

    Grandes cariocas ganharam a vida caminhando. O jornalista João do Rio fez do ato de caminhar a criação de sua obra. No livro A Alma Encantadora das Ruas, ele inicia dizendo: “Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que esse amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos nós.”

    Tanto por isso que, assim como em Veneza se passeia em gôndolas, o ato de caminhar no Rio é uma atração turística. E foi caminhando pela Rua do Ouvidor que cheguei a uma livraria onde havia livros do jornalista Ruy Castro autografados. O livreiro era amigo do escritor e, em poucos minutos falando sobre livros, tornou-se também meu amigo. Com isso, um dia de chuva, um dia molhado, se tornou inesquecível. Aliás, a livraria se chama Folha Seca.

  • Cantaram seu nome nos jornais como se ele fosse um titã, um semideus, uma mistura de São Francisco de Paula com Teixeirinha. Eu assino embaixo de tudo que foi escrito. Pois, sim, ele foi imenso. Gritou como um animal manso e narrou o espírito humano em toda a sua complexidade.

    Uma complexidade que não busca verdades, mas convence pela lucidez. Falar, falar, falar muitas vezes não é eficaz. No fundo, as palavras são vazias como o bolso do brasileiro, mas, quando alguém como o Luis Fernando Veríssimo as usa, ele provoca a sensação mais importante na vida: o riso.

    O humor literário raras vezes leva o leitor até a gargalhada; ele é um alimento diário que nutre. Enquanto tu lês um texto do Luis Fernando Veríssimo, tu expressa um hã-hã — simples, mas sempre epifânico.

    Há sempre algo para aprender em suas crônicas e, poderia dizer, algo para se deliciar. Um texto que tu consegues acariciar, acariciaaaar, acariciaaaaaaaar… até chegar lá. O prazer de ler é tão excitante que vou largar esse teclado e penetrar A Mulher do Silva.

  • O grande filme da minha geração estreou no Cineflix, em Pelotas. A fila para entrar na sessão estava agitada, todos querendo cumprimentar e parabenizar os realizadores, mesmo sem ainda ter visto uma cena. A ansiedade era grande; as pessoas transbordavam sorrisos, sabendo que veriam uma história emocionante.

    Quando consegui apertar a mão de Nauro Júnior, ele disse que estava tão nervoso que havia mordido o lábio. A Gabi Mazza, sempre solícita, distribuía uma centena de abraços por metro quadrado. A Sofia Mazza, estudante de jornalismo, captava cenas com uma câmera de vídeo, reforçando o ditado popular de que a fruta não cai longe do pé.

    O documentário da família mais aventureira de Pelotas apresentou uma filosofia de vida simples: a ideia de que, com amizade, é possível chegar longe, ainda mais se for embarcado em um Volkswagen Fusca. Saindo de Pelotas para conquistar a Europa de ponta a ponta e desbravar a América Latina, Nauro, Sofia e Gabi escancararam no cinema que O Mundo Cabe em um Fusca.

    Sem medo de errar, escrevo: ninguém fará um filme tão inspirador na minha geração. Durante a projeção, as pessoas olhavam atentas para a tela, com os olhos úmidos de emoção. Eu também estive de olhos marejados e, ao mesmo tempo, anotei algumas frases no meu moleskine: “O mundo é uma porção de terra na volta da palafita.”, “O sentido não é o destino final, mas o que tu vai encontrar pelo caminho.”, “O idioma dos viajantes é universal.”, “Muito sonho e pouca plata.”, “Quem tem medo de pesadelo não se permite sonhar.”, “Pra quem acredita no sonho, o impossível não existe.”.

  • O Cine UFPEL exibiu A Paixão dos Fortes (1946). Em Pelotas, foi uma oportunidade preciosa ver um clássico do diretor John Ford na telona. Na minha época de graduação, o que mais rolava era cinema nacional contemporâneo: a curadoria agora está muito mais amistosa. Depois de alguns anos sem frequentar a sala da academia, como de costume, sentei na primeira fila.

    E, da primeira fila, recebendo as imagens primeiro que os outros espectadores, assisti a um típico western com quilos de pólvora e tiros para todo lado. Mas vamos lá: além do conflito sheriff vs. fora da lei, a história continha monólogos do Hamlet e, em cima de uma mesa de saloon, uma mulher foi operada como no quadro A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt.

    Nem só de tiroteios vivia a cidade de O.K. Corral; havia um tantinho de cultura no deserto do Arizona. No entanto, assisti recentemente a Os Fabelmans (2022), que conta a história do diretor Steven Spielberg. No final do filme, um Spielberg adolescente vai procurar seu ídolo John Ford nos estúdios de Hollywood. Nesse encontro, acontece o que podemos chamar de “a aula sobre cinema mais interessante da história do cinema”.

    O John Ford de tapa-olho, fumando charuto e batendo recordes mundiais de rabugice, grita — para que o assustado Steven Spielberg não esqueça: “Quando o horizonte está no topo, é interessante. Quando está no fundo, é interessante. Quando está no meio, é chato pra caramba”.

  • Em uma exposição de fotografias no saguão da Prefeitura de Pelotas, as imagens mostravam cenas de pessoas feridas e mortas. Registradas em coberturas jornalísticas de tragédias da cidade, essa seleção mórbida causava um desconforto evidente em quem passava os olhos pelos quadros. Mas ainda tem mais: no dia da vernissage, o fotógrafo entrou na exposição dentro de um caixão. Dá pra acreditar?

    Ainda preciso achar uma fonte documental desse acontecimento. As pessoas que me falaram sobre essa exposição não se empolgaram muito nos detalhes e, depois de um comentário e outro, logo trocaram de assunto. Mas quem era esse cavaleiro das trevas, esse Ozzy Osborne da fotografia? Seu nome todos se lembram e repetem: Vilmar Tavares.

    Vilmar foi um profissional com liberdade criativa. Fez sua carreira no jornal Diário da Manhã, onde editou a coluna que se chamava “Imagens”: uma página inteira, sem texto, com fotografias feitas durante a semana em curso. Tu conhece algum jornalista que manteve uma coluna fotográfica?

    Atuando em jornal diário, seu trabalho se tornou bastante popular, muito influenciado pelas fotografias para a editoria de polícia. É inimaginável que alguém conseguisse fazer uma exposição com fotografias de tragédias no salão de entrada da prefeitura, mas o Vilmar, pelo jeito, tinha moral para isso. Sua figura ficou tão marcada na cidade que a rua onde morava foi batizada como Rua Vilmar Tavares – repórter fotográfico. Hoje fazem 14 anos do seu falecimento.

  • Esses dias, postei no Instagram um vídeo praticando street photography. A galera curtiu: é um vídeo estilo POV, que mostra a visão do fotógrafo enquanto registra as cenas. A referência é o documentário Everybody Street (2013). Na rede social, duas pessoas me mandaram mensagem perguntando: ‘Com quem tu aprendeu a fotografar na rua?’

    Fotografar na rua partiu da ideia de praticar ‘o mais interessante dos esportes — a arte de flanar’, como escreveu o João do Rio no livro A alma encantadora das ruas.

    “Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, […].  É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico.’’

    Foram as ideias desse livro que me influenciaram a fotografar na rua. Como fui estudar jornalismo, há uma série de fotógrafos que foram referências no meu aprendizado, incluindo fotógrafos pelotenses. Inclusive, há um fotógrafo pelotense que foi tão atuante na profissão que, após o seu falecimento, seu nome virou placa de rua.

  • Enquanto eu tomava quentão antes do espetáculo, uma senhora, na fileira da frente, fazia uma compra no aplicativo da Magalu. O Teatro Guarany lotava para a peça O Veneno do Teatro. A noite estava agradavelmente úmida, pouco fria, nem precisava usar luvas. As pessoas foram se acomodando. Uma voz saiu da caixa de som, pedindo para desligar os celulares. A campainha deu dois toques. As cortinas abriram.

    Baseado no título, esperava que em algum momento da história alguém iria tomar veneno. A cena aconteceu mais pro fim da peça quando: o ator que interpretava o personagem que era um ator, com o corpo intoxicado, se debatendo, implorava pelo antídoto.

    Como o cara não era lá flor que se cheire — tinha, nesse personagem, uma arrogância, uma maldade soft —, lembrei de uma frase repetida numa prosa de balcão: Similia similibus curantur. Não precisa achar que eu sou monga ou que esse texto desandou para um beletrismo: eu ouvi, com estes ouvidos que Jah me deu, da voz de um homem que, está bem, bebia moderado, mas não usava batina: Similia similibus curantur.

    O que o nosso amigo do balcão quis dizer foi que o mal se cura pelo próprio mal, ou seja, o antídoto da picada da cobra é o seu próprio veneno. Depois de beber, as pessoas apelam até para o latim. Na peça O Veneno do Teatro, o personagem, que era um ator, teve que atuar para não morrer. Ele chegou a beber o antídoto, mas não entendi se se salvou da morte. Foi uma das melhores peças que já assisti.