• Ela passou a tarde aqui em casa. Conversamos sobre poesia e lemos um livro do Wally Salomão que estava sobre o sofá. Deixei virar água do mate no livro. A lambança do dia. Até que foi uma cena boa para descontrair. Pra mim estar tomando chimarrão é porque tem visita. A visita seguiu lendo os versos sujos de erva, com o rosto na luz do sol que entrava pela janela.

    É um sentimento bom conversar com uma pessoa que leu o mesmo livro. Há uma cumplicidade sorrateira. É como se um descobrisse um segredo do outro, como se tivessem a mesma tatuagem ou um parente incomum.

    Um livro coloca as pessoas em cada uma. Queiram ler mais. Vocês vão ver o que vão encontrar. São aventuras dentro e fora das histórias. A imaginação tem essa malemolência de fazer as pessoas viverem situações memoráveis.

    Quando ela comentou que precisava ir embora, eu estava cuidando o horário para ir assistir a Os Estonianos. Enquanto eu tomava banho, ela passou a minha camisa. Eu já tinha deixado o carro abastecido. Dirigi até o apartamento dela, pertinho da Catedral. Ela subiu carregando um livro que emprestei. Eu segui guiando, mas nem tinha chegado na Praça Coronel Pedro Osório quando apitou uma mensagem no celular dizendo que a peça havia sido cancelada.

  • Na maior edição da história das Copas, todo mundo quer ir bem vestido. Das 48 seleções que vão disputar a competição, seis vagas ainda vão ser preenchidas na repescagem. Quem já está com o passaporte carimbado, bem de boas, tem feito o lançamento de seus uniformes oficiais.

    A camisa azul da Seleção Brasileira inovou ao trazer a parceria com a Jordan Brand. O icônico logotipo Jumpman aproxima o torcedor da imagem de um dos maiores atletas de todos os tempos. Na resenha com os amigos, já ouvimos alguém largar essa: “Michael Jordan é o Pelé do basquete’’. E, como o basquete é o esporte mais popular dos EUA, o Brasil vai chegar na Copa com carisma e conectado com a cultura local. 

    O marketing do Jumpman foi um golaço. Mas, apesar de jogar em casa, a Nike não está na dianteira como a maior fornecedora. Das 42 seleções classificadas, 34 têm patrocínio das três gigantes de material esportivo: Adidas, com 13 equipes; Nike, com 11; e Puma, com 10. Com transmissões ao vivo que podem atingir 1 bilhão de pessoas simultaneamente, essa disputa publicitária é uma Copa à parte.

    As outras oito seleções carregam marcas de menor escala, mas conhecidas pela galera: Irã (Majid), Jordânia (Kelme), Uzbequistão (Jako), Equador (Marathon), Panamá (Reebok), Haiti (Saeta), Cabo Verde (Tempo) e Tunísia (Kappa). 

    Deve ser da hora estar nessa vibe de fazer as malas, escolhendo os looks para curtir o verão norte-americano. Já cadastrei várias tampinhas e anéis de latas na promoção da Coca-Cola. Vai que a sorte me dê um passe tipo os do Ronaldinho Gaúcho. Futebol tem que ter gana (mesmo com pouco futebol). O grito da torcida já pegou: Vai, Brasa! 

  • Uma parada que não é tão legal quando se mora sozinho é esquecer a toalha. A única opção é sair do banho e molhar a casa. Faz parte da aventura.

    Desde que comprei o livro Só Pra Um, da Rita Lobo, não cheguei perto do fogão. Eu gostaria de aprender um pouco mais sobre cozinha e cozinhar. Apesar de esses dias eu ter queimado a pipoca de micro-ondas, bah! Depois dessa, na verdade, é melhor manter o cutelo pendurado.

    Deu pra sentir o cheiro de terra molhada hoje de tarde, antes de começar a chover. O outono começou quente. “Noites quentes com chopinho gelado têm que ser agora”, escrevi num copy pro Madre essa semana. Pra quem gosta de madrugada, uma noite quente é como se o sol não fosse embora.

    Hoje cantei parabéns pra minha avó Nita, ela fez 90 anos.

    Sou o que sou e ninguém vai me mudar. Acho que essa frase ouvi numa música. É preciso ser otimista. E sempre encontro otimismo quando tô ouvindo música. Hoje brisei numa do Charlie Brown:

    Eu sou aquele vento que a tua tenda derrubou
    Aquela droga forte que você tomou e pirou
    Aquele portal que você nunca atravessou
    E que você nunca, nunca vai conseguir
    Superar

    Cria de rua sagaz
    Não se deixa controlar
    Arredio
    Pronto pra voar
    Quem é real sabe o que faz e pode até te ensinar

    Foi da hora. 

  • O Oscar vem aí para colocar a galera na torcida. Virou campeonato, quase uma Copa do Mundo. No ano passado, Ainda Estou Aqui, do diretor Walter Salles, levou a estatueta de Melhor Filme Internacional, numa noite de premiação em pleno Carnaval. Que festa. O filme extrapolou a sala de cinema e se consolidou como símbolo na cultura pop. E, falando em cultura pop, desde que a tecnologia possibilitou que as pessoas opinassem nas redes sociais, os brasileiros estiveram lá.

    “Please, come to Brazil” foi uma das primeiras ações de internautas brasileiros nas páginas de artistas estrangeiros, convidando-os a vir ao país para fazer shows. Um vomitaço, como chamavam essas ações. Algumas deram certo. Outras foram bem inconvenientes. O ponto é que o Brasil é um dos líderes globais em consumo nas redes sociais, isso desde o tempo do Orkut. Não é uma liderança muito desejada, mas produz efeitos em disputas simbólicas.

    Em artigo publicado na The New Yorker, na sexta-feira (20.fev.), o crítico Michael Schulman observa que o Oscar deixou de ser uma premiação do cinema americano e se tornou uma competição global. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas incluiu novos membros, ampliando a diversidade racial e geográfica. Foi uma pressão dos novos tempos que partiu, principalmente, de manifestações nas redes sociais.

    Quando a live no Instagram da Academia entrou no ar para transmitir os indicados ao Oscar 2026, o conteúdo nem havia começado, e os comentários estavam tomados por emojis com bandeirinhas do Brasil. A internet brasileira reafirma, assim, uma vocação: pode-se discutir método, exagero ou estratégia, mas, em matéria de torcida — organizada ou espontânea —, a galera também sabe ocupar a arquibancada digital.

  • Estava batendo os chinelos em frente ao prédio do extinto vespertino A Opinião Pública. No meio da rua, uma guria fumava um cigarro com luvas de veludo, enquanto o Mickey e a Minnie se beijavam ao seu lado. Bundas dentro de maiôs coloridos e contornadas por meias-calças arrastão pulavam sobre o paralelepípedo. Torsos nus desfilavam o resultado dos treinos da academia. Uma mãe fazia a foto do seu filho ao lado da alegoria do Jacaré da Lagoa. A Quinze de Novembro exalava o perfume de suor e cerveja característico desse período momesco.

    No Carnaval, o riso confronta a autoridade, o exagero está geladinho dentro de copos Staley e os corpos estão propícios a se encontrarem. É o tempo fora do tempo, um êxtase coletivo em culto à felicidade. Dava para ver no rosto das pessoas a liberdade das amarras cotidianas. E, influenciadas pela batucada, a galera se jogava nos braços da algazarra e se deixava levar pela marcha da bateria. Eu reparei que o ritmista do surdo estava muito empolgado. Tocava o tambor com a mesma responsabilidade de um coração bombeando sangue. Vendo ele bater num couro sintético verde, lembrei da história dos Bambas do Estácio.

    Os Bambas do Estácio foram uma turma que, além de valentes, alegres, safos e, se preciso, perigosos, eram compositores requisitados no Rio dos anos vinte. Lá por 1927, eles criaram o bloco chamado Deixa Falar. Naquela época, os blocos desfilavam em direção à Praça Onze, no centro do Rio, onde disputavam com blocos de outros bairros um torneio de samba. Mas não raro, ao se cruzarem na rua, as coisas terminavam em briga e envolvimento com a polícia. E, quando se metia autoridade no meio, não era bom pra quem tinha ofícios pouco ortodoxos. Logo, para contornar os pega-pra-capa, a turma do Estácio decidiu que o Deixa Falar teria uma denominação que inspirasse respeito, e se tornou uma escola de samba.

    A Escola de Samba Deixa Falar, no carnaval de 1928, desfilou como se fosse uma opereta: com enredo, fantasias de luxo, carro abre-alas, uma dupla de mestre-sala e porta-bandeira, divisão em alas (incluindo a de baianas), e cores oficiais (vermelho e branco). Elementos que já existiam no carnaval, mas nunca tinham sido apresentados juntos e em composição. A admiração do povo foi avassaladora. O samba também soava diferente, langoroso, com o ritmo firmado por uma grande lata de banha, com a boca coberta por um couro de cabrito esticado. No meio de tanta inovação, nascia também o surdo.

  • Já faz um bom tempo e, de certa forma, ainda era a aurora da nossa identidade como país. Numa época em que, em qualquer rendez-vous, era preciso saber savoir-faire. Ou, ia-se a um debut no teatro assistir a um mise-en-scène. Isso nos idos do século dezenove, quando nosso dialeto estava tomado por francesismos e anglicismos que, apesar de serem um modo chic de se comunicar, para o gramático e latinista Antônio de Castro Lopes, soavam como um desaforo.

    Castro Lopes foi o precursor de um dos grandes personagens da literatura brasileira, Policarpo Quaresma: lembra dele? No livro de Lima Barreto, Policarpo sugeriu, na Assembleia Legislativa, a adoção do tupi como língua oficial, quando o conceito de reparação histórica ainda era algo pré-cambriano na política brasileira.

    Todavia, o Castro Lopes não tinha o mesmo verniz do Policarpo Quaresma. A sua indignação era contra as palavras estrangeiras que, a seu ver, estavam contaminando a língua pátria. No seu livro Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis, ele vai propor: “limpar a linguagem vernácula de vozes bárbaras e criar bons termos que no idioma português faltem para traduzir os exóticos”.

    Ou seja, Castro Lopes vai se dedicar a criar palavras novas para substituir as estrangeiras. Mas, vejam só, muitas palavras estrangeiras não eram traduções com o mesmo significado, tipo: love = amor. Algumas palavras representavam invenções nomeadas naquele país. Assim, Castro Lopes vai propor a substituição de: chofer por cinesífero; abajur por lucivelo; anúncio por preconício; cachecol por castelete; turista por ludâmbulo; repórter por alvissareiro; futebol por ludopédio; peignoir por roupão; e menu por cardápio.

    Por mais excêntricas que pareçam, algumas estão aí até hoje.

  • A ideia de diversão sempre esteve acompanhada de bebida. E, na diversão, nunca existiu o beber socialmente. Ficar bêbado sempre foi a meta da felicidade. “Na minha casa / todo mundo é bamba / todo mundo bebe / todo mundo samba”, cresci ouvindo. Ou ainda: “Amigo eu nunca fiz bebendo leite / amigo eu não criei bebendo chá”, cantou o Zeca. E vamos lá, concordo que beber é realmente prazeroso. Acontece que existe uma romantização da bebida, que vai transformando o prazer de beber, em momentos de festa, num refúgio para qualquer eventualidade.

    A publicidade dá um empurrãozinho nessa romantização, principalmente, pela publicidade de cerveja. Conseguiu-se quase zerar, dos veículos de comunicação, os anúncios de bebidas destiladas e fermentadas. Agora, a cerveja, de certa forma, é ungida culturalmente. Isso cria um sentimento de pertencimento nas pessoas, e o prazer da bebida se torna algo “merecido”. Se estou cansado, bebo. Se estou feliz, bebo. Se está calor, uma cervejinha. Se está frio, uma taça de vinho. E, se faltar, o Zé Delivery entrega na porta de casa.

    Não estou aqui querendo pregar moral de cuecas. Inclusive, vou tomar a minha cervejinha logo mais. O que me fez chegar nesse assunto foi ter assistido ao trailer do filme (Des)controle. Protagonizado pela atriz Carolina Dieckmann, o filme mostra a história de uma escritora que volta a beber depois de anos e vive, mais uma vez, essa tão conhecida tragédia do alcoolismo. Uma doença que pode começar com um Corote mal gelado ou com um Royal Salute servido em cristal.

    Assim como ganhei amigos bebendo, um grande amigo se afastou por entender que a relação com a turma sempre acabava nos bares. Ele estava certo. Espero que esteja passando bem. Ver histórias que mostram onde o excesso pode levar é importante para a conscientização. (Des)controle estreia dia 5 de fevereiro. É um filme interessante para assistir nesse ano.

  • No Largo do Mercado, um gurizinho, quase engolido pela tuba, inflando as bochechas, tentava arrancar os primeiros sopros do instrumento. Isso na concentração do cortejo de abertura do 14º Festival Internacional SESC de Música, onde a junção de profissionais, alunos e amadores tocando pelas ruas dá início a um período de riqueza cultural inigualável.

    Presente no cotidiano, a música impacta as pessoas sem pedir licença. Pode ser a mulher com tailleur impecável, apressada para um compromisso de trabalho; aquele aposentado no banco do calçadão que fica vendo Only Fans; ou o adolescente que arrasta o All Star, imerso na curadoria do seu algoritmo. Não há como escapar: a paisagem sonora está nas calçadas, restaurantes, cafés, igrejas e, inclusive, em supermercados.

    Mas até agora não soube de ninguém querendo escapar das performances musicais. Pelo contrário, nesses dias de festival, há um aumento significativo de arrepios na espinha, deslumbramentos, admiração, fascínio, surpresa, euforia, alegria e, uma certa doce melancolia, ao ficar exposto a tanta beleza. Imersa na arte musical, a população vive uma educação sentimental.

    São quatorze edições do festival em que a cidade experimenta essa explosão sensorial coletiva. A música de concerto já foi incorporada por pessoas em todas as camadas e matizes sociais. Pelotas está preparada para ter a sua própria orquestra sinfônica. E, no futuro, aquele gurizinho dos primeiros sopros talvez possa dizer, assim como disse o Erico Verissimo: “Eu venho de uma cidade que tem uma orquestra sinfônica’’.

  • Ir à praia é tão bom quanto pão quentinho. Agora, pão quentinho depois da praia é melhor ainda. O mar cansa como uma maratona e o beque dá uma larica oceânica. No chuveiro do camping, tu entende o que é água doce. Na frente da barraca, vou recheando o cacetinho com a mão mesmo, e os farelos vão caindo na raiz da árvore. A namorada segue colocando pós-sol nos seios depois de uma tarde de topless.

    Nada parece urgente. O céu em lusco-fusco está naquele momento em que o tempo parece desacelerar. Só o que importa é observar as cores. Há algo de triste e romântico na beleza do entardecer. Sinto que estou feliz, feliz e com calor. Como é bom sentir calor após um inverno rigoroso. O camping parece viver um momento de ócio. Até que um motoboy soa um tantinho estranho quando entra vestindo roupas de chuva e capacete, parecendo um Power Ranger carregando um saco de gelo.

    O vizinho da barraca mais adiante segue bebendo seu uísque, agora um pouco mais gelado. Crianças pedalam, apostando corrida até o portão. Um senhor de bigode branco leva seus espetos de churrasco na direção do tanque. Vestido apenas de sunga, um jovem chega carregando um saco de carvão numa mão e sacolas do supermercado na outra. As cores do céu vão ficando mais desbotadas. Alguém acende uma lâmpada.

    A namorada já está penteada e maquiada. Uma beleza queimada de sol resplandece no seu rosto. Linda, linda, com um ar selvagem fora do cotidiano. Saímos para jantar, mas antes passamos na pista de skate. Estávamos em cima da rampa quando a lua cheia apareceu intensamente iluminada, dando um efeito transcendental a esse dia no litoral.

  • Nesses últimos dias do ano, a galera costuma mostrar a retrospectiva das suas leituras. Sempre rola de pegar nessas listas alguma dica para a próxima ida à livraria, mas também dá uma pitada de angústia por não ter conseguido ler aquele lançamento tão bem falado. Sempre haverá mais livros para ler do que tempo. Certamente, tu sabes escolher qual é o mais apropriado.

    Como entramos nessa vibe de retrospectiva, gostaria de comentar sobre um livro e um filme que fizeram a minha cabeça. Ambos vêm da mesma fonte, uma fonte que completou cem anos em 2025. Quando o assunto é jornalismo literário, é a precursora. Claro que estou falando da minha, da tua, da nossa: The New Yorker Magazine.

    Ainda lá por janeiro, onze meses antes do Natal, a Editora Carambaia presenteou os leitores brasileiros com o livro Sempre Repórter – textos da revista The New Yorker, da Lillian Ross. Com muitas ideias para os amantes da arte da reportagem, esses textos inéditos em português trouxeram, pelo menos para mim, insights, epifanias e uma ideia mais ampla de quanto a revista se preocupa não apenas com o assunto, mas, principalmente, em publicar textos bem escritos.

    Já o documentário The New Yorker at 100, lançado em dezembro na Netflix, dá luz, câmera e ação à imaginação dos leitores. A equipe do cineasta Marshall Curry mostra o cotidiano dos profissionais, uma turma com muito estilo e personalidade. Mesmo que haja um papo sobre como fazer a revista não parecer antiquada, ao olhar as cenas, tu percebe que nada daquele andar no World Trade Center parece antiquado. Depois de assistir ao filme, até fixei no Instagram uma foto em que apareço lendo a revista.