• O Cine UFPEL exibiu A Paixão dos Fortes (1946). Em Pelotas, foi uma oportunidade preciosa ver um clássico do diretor John Ford na telona. Na minha época de graduação, o que mais rolava era cinema nacional contemporâneo: a curadoria agora está muito mais amistosa. Depois de alguns anos sem frequentar a sala da academia, como de costume, sentei na primeira fila.

    E, da primeira fila, recebendo as imagens primeiro que os outros espectadores, assisti a um típico western com quilos de pólvora e tiros para todo lado. Mas vamos lá: além do conflito sheriff vs. fora da lei, a história continha monólogos do Hamlet e, em cima de uma mesa de saloon, uma mulher foi operada como no quadro A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt.

    Nem só de tiroteios vivia a cidade de O.K. Corral; havia um tantinho de cultura no deserto do Arizona. No entanto, assisti recentemente a Os Fabelmans (2022), que conta a história do diretor Steven Spielberg. No final do filme, um Spielberg adolescente vai procurar seu ídolo John Ford nos estúdios de Hollywood. Nesse encontro, acontece o que podemos chamar de “a aula sobre cinema mais interessante da história do cinema”.

    O John Ford de tapa-olho, fumando charuto e batendo recordes mundiais de rabugice, grita — para que o assustado Steven Spielberg não esqueça: “Quando o horizonte está no topo, é interessante. Quando está no fundo, é interessante. Quando está no meio, é chato pra caramba”.

  • Em uma exposição de fotografias no saguão da Prefeitura de Pelotas, as imagens mostravam cenas de pessoas feridas e mortas. Registradas em coberturas jornalísticas de tragédias da cidade, essa seleção mórbida causava um desconforto evidente em quem passava os olhos pelos quadros. Mas ainda tem mais: no dia da vernissage, o fotógrafo entrou na exposição dentro de um caixão. Dá pra acreditar?

    Ainda preciso achar uma fonte documental desse acontecimento. As pessoas que me falaram sobre essa exposição não se empolgaram muito nos detalhes e, depois de um comentário e outro, logo trocaram de assunto. Mas quem era esse cavaleiro das trevas, esse Ozzy Osborne da fotografia? Seu nome todos se lembram e repetem: Vilmar Tavares.

    Vilmar foi um profissional com liberdade criativa. Fez sua carreira no jornal Diário da Manhã, onde editou a coluna que se chamava “Imagens”: uma página inteira, sem texto, com fotografias feitas durante a semana em curso. Tu conhece algum jornalista que manteve uma coluna fotográfica?

    Atuando em jornal diário, seu trabalho se tornou bastante popular, muito influenciado pelas fotografias para a editoria de polícia. É inimaginável que alguém conseguisse fazer uma exposição com fotografias de tragédias no salão de entrada da prefeitura, mas o Vilmar, pelo jeito, tinha moral para isso. Sua figura ficou tão marcada na cidade que a rua onde morava foi batizada como Rua Vilmar Tavares – repórter fotográfico. Hoje fazem 14 anos do seu falecimento.

  • Esses dias, postei no Instagram um vídeo praticando street photography. A galera curtiu: é um vídeo estilo POV, que mostra a visão do fotógrafo enquanto registra as cenas. A referência é o documentário Everybody Street (2013). Na rede social, duas pessoas me mandaram mensagem perguntando: ‘Com quem tu aprendeu a fotografar na rua?’

    Fotografar na rua partiu da ideia de praticar ‘o mais interessante dos esportes — a arte de flanar’, como escreveu o João do Rio no livro A alma encantadora das ruas.

    “Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, […].  É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico.’’

    Foram as ideias desse livro que me influenciaram a fotografar na rua. Como fui estudar jornalismo, há uma série de fotógrafos que foram referências no meu aprendizado, incluindo fotógrafos pelotenses. Inclusive, há um fotógrafo pelotense que foi tão atuante na profissão que, após o seu falecimento, seu nome virou placa de rua.

  • Enquanto eu tomava quentão antes do espetáculo, uma senhora, na fileira da frente, fazia uma compra no aplicativo da Magalu. O Teatro Guarany lotava para a peça O Veneno do Teatro. A noite estava agradavelmente úmida, pouco fria, nem precisava usar luvas. As pessoas foram se acomodando. Uma voz saiu da caixa de som, pedindo para desligar os celulares. A campainha deu dois toques. As cortinas abriram.

    Baseado no título, esperava que em algum momento da história alguém iria tomar veneno. A cena aconteceu mais pro fim da peça quando: o ator que interpretava o personagem que era um ator, com o corpo intoxicado, se debatendo, implorava pelo antídoto.

    Como o cara não era lá flor que se cheire — tinha, nesse personagem, uma arrogância, uma maldade soft —, lembrei de uma frase repetida numa prosa de balcão: Similia similibus curantur. Não precisa achar que eu sou monga ou que esse texto desandou para um beletrismo: eu ouvi, com estes ouvidos que Jah me deu, da voz de um homem que, está bem, bebia moderado, mas não usava batina: Similia similibus curantur.

    O que o nosso amigo do balcão quis dizer foi que o mal se cura pelo próprio mal, ou seja, o antídoto da picada da cobra é o seu próprio veneno. Depois de beber, as pessoas apelam até para o latim. Na peça O Veneno do Teatro, o personagem, que era um ator, teve que atuar para não morrer. Ele chegou a beber o antídoto, mas não entendi se se salvou da morte. Foi uma das melhores peças que já assisti.

  • Ao longo das minhas vivências como leitor e escritor, aprendi algumas definições de crônica. Dentre elas: a crônica é um texto escrito com os pés.

    Essa alcunha tem tudo a ver com a jornada que tracei pelo mundo das letras. Tudo começou em caminhadas criativas pela cidade — leia-se: vagabundear — nas quais eu procurava escrever o que estava vendo. Foi a forma que encontrei de praticar a escrita, um tanto parecida com a estratégia de aprendizado da fotografia.

    Ambas as linguagens têm em comum a brevidade. A fotografia é um instantâneo; a crônica, uma instantaneidade. Essa frase não ficou muito clara, mas há clareza no seu efeito sonoro. Ritmo. Taí outra definição: crônica é um texto escrito em um tambor.

    Gosto dessa ideia de música, assim como da ideia de forma breve. Tipo aquele diálogo: – Buenas tardes, tá ventoso hoje, eim? Tem que botar umas pedras no bolso. Essa é a essência. Com essa essência, é preciso ver o mundo. E caminhar.

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