Estava batendo os chinelos em frente ao prédio do extinto vespertino A Opinião Pública. No meio da rua, uma guria fumava um cigarro com luvas de veludo, enquanto o Mickey e a Minnie se beijavam ao seu lado. Bundas dentro de maiôs coloridos e contornadas por meias-calças arrastão pulavam sobre o paralelepípedo. Torsos nus desfilavam o resultado dos treinos da academia. Uma mãe fazia a foto do seu filho ao lado da alegoria do Jacaré da Lagoa. A Quinze de Novembro exalava o perfume de suor e cerveja característico desse período momesco.

No Carnaval, o riso confronta a autoridade, o exagero está geladinho dentro de copos Staley e os corpos estão propícios a se encontrarem. É o tempo fora do tempo, um êxtase coletivo em culto à felicidade. Dava para ver no rosto das pessoas a liberdade das amarras cotidianas. E, influenciadas pela batucada, a galera se jogava nos braços da algazarra e se deixava levar pela marcha da bateria. Eu reparei que o ritmista do surdo estava muito empolgado. Tocava o tambor com a mesma responsabilidade de um coração bombeando sangue. Vendo ele bater num couro sintético verde, lembrei da história dos Bambas do Estácio.

Os Bambas do Estácio foram uma turma que, além de valentes, alegres, safos e, se preciso, perigosos, eram compositores requisitados no Rio dos anos vinte. Lá por 1927, eles criaram o bloco chamado Deixa Falar. Naquela época, os blocos desfilavam em direção à Praça Onze, no centro do Rio, onde disputavam com blocos de outros bairros um torneio de samba. Mas não raro, ao se cruzarem na rua, as coisas terminavam em briga e envolvimento com a polícia. E, quando se metia autoridade no meio, não era bom pra quem tinha ofícios pouco ortodoxos. Logo, para contornar os pega-pra-capa, a turma do Estácio decidiu que o Deixa Falar teria uma denominação que inspirasse respeito, e se tornou uma escola de samba.

A Escola de Samba Deixa Falar, no carnaval de 1928, desfilou como se fosse uma opereta: com enredo, fantasias de luxo, carro abre-alas, uma dupla de mestre-sala e porta-bandeira, divisão em alas (incluindo a de baianas), e cores oficiais (vermelho e branco). Elementos que já existiam no carnaval, mas nunca tinham sido apresentados juntos e em composição. A admiração do povo foi avassaladora. O samba também soava diferente, langoroso, com o ritmo firmado por uma grande lata de banha, com a boca coberta por um couro de cabrito esticado. No meio de tanta inovação, nascia também o surdo.

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