O travessão sempre foi um sinal de pontuação que se apresentava de terno e gravata, usado por escritores com estilo sofisticado. Hoje em dia, ele está ameaçado de vestir roupa listrada, tipo as dos presídios americanos. Usá-lo virou sinônimo de cópia de textos escritos por inteligência artificial, uma espécie de literatura fast-fashion. Nos livros, ele ainda se apresenta de traje social, o leitor confia na curadoria da editora. Mas, em textos da internet, quando aparece um travessão, a primeira coisa que vem na cabeça é o ChatGPT.

Mesmo que o escritor seja um laureado, um alfaiate do abecedário, assim que vemos o travessão na frase, a pulga atrás da orelha começa a roçar. Tanto que, esses dias, caminhando pra casa, reparei numa pixação que dizia: “Entre o caos e o céu — eu passo”. Nunca tinha visto pixo com travessão, isso só pode ser frase criada com IA.

A palavra travessão deriva de “travessia”, que significa a ação de atravessar uma região, um continente ou uma era. Nessa era da inteligência artificial, o travessão se tornou a roupa que estamos vestindo para ir à festa da hiper-realidade. Mas por que a inteligência artificial usa tanto esse sinal? Talvez pelo fato de muitos dos textos usados para treiná-la terem o travessão como sinal de estilo.

É aí (ou IA?) que começa o enrosco. Muitos dos textos usados para treinar as inteligências artificiais vem de jornais que não liberaram o seu conteúdo. Se você perguntar para uma IA: qual é a manchete da Folha de São Paulo de hoje?, ela vai furar o paywall do jornal e te dar um resumo da matéria, às vezes até na íntegra. Mais constrangedor é que o texto vem com travessão em frases em que ele não aparecia no original. Além de não respeitar os direitos autorais, costura o travessão no texto alheio. A Folha de São Paulo não deixou por menos, processou a OpenAI e quer que o travessão, definitivamente, vista roupas listradas.

Posted in

Deixe um comentário