Tenho lembranças da Feira do Livro desde o tempo em que eu ainda nem era leitor. Não fazia ideia do que era uma perífrase, nem passava pela minha cabeça o que poderia ser uma pentapodia — ainda mais um rispetto —, mas eu abria um sorriso quando meu pai dizia que minha tia tinha uma “boquinha de tramela” ou quando um amigo ia “mocosar” os cigarros. Minha atenção sempre esteve inclinada para a linguagem. Foi esse interesse que me fez encontrar os livros e achar a literatura algo “de gabara’’.

Mas não conto com a ideia de que um leitor é a pessoa que vai gabaritar os estudos, literatura tem a ver com sensibilidade, com o olhar para o mundo. “Ler é mais importante que estudar”, ensinou o Ziraldo. O Menino Maluquinho foi um dos primeiros livros que ganhei na Feira do Livro. Eu adorei, pois em cada página havia uma frase, e tu ia folheando com agilidade, pegando o embalo da leitura.

Gostaria de lembrar a primeira frase de O Menino Maluquinho, vou até procurar o livro aqui na estante. Mas tem essa coisa legal que é o “teste da primeira frase’’, um jogo que gosto de praticar durante a Feira do Livro. Essa ideia de a primeira frase ter de ser arrebatadora, aprendi no finado blog Todo Prosa, do Sérgio Rodrigues, quando ele contou sobre o início de livro mais lembrado da literatura: “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, de Anna Kariênina, do Tolstói.

Se tu ainda não leu Tolstói, vale a pena. Mas se tu não achar interessante, é só uma dica, a grande leitura é sempre aquela que nos dá prazer. Às vezes é a capa do livro que nos leva para a leitura. Mas o teste da primeira frase é muito divertido. Tente quando tu estiveres cavucando nos sebos. Fui à Feira do Livro essa semana e fiz um dos achados da minha vida: uma coleção da editora Leya com treze livros do Manoel de Barros. Essa eu não vou esquecer nunca. Quando bati os olhos nos livros, no sebo Icária, abri um dos volumes e li a primeira frase: “Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia’’.

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