Após publicar no Instagram fotos da minha última viagem, alguns amigos me disseram que eu fui ao Rio de Janeiro para fotografar estátuas. Na verdade, eu fui atrás de inspiração para escrever. As estátuas que fotografei são uma consequência da vida literária, tanto da minha vida literária quanto da vida dos literatos que admiro e que estão homenageados em bronze nas ruas da cidade.
Clarice Lispector está de costas para a praia de Copacabana, num ponto em que é possível enxergar a extensão entre o Leme e o Pontal. Seu olhar ignora a paisagem, como se seus pensamentos fossem mais inspiradores do que o mar. Segurando um livro, com seu companheiro, o cachorro Ulisses, deitado ao lado, ela reflete sobre sua escrita. E como eu sei que ela está pensando sobre escrita? Olha o que diz na placa de identificação: “Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra.”
Agora, o prosador carioca mais popular de todos os tempos caminha por uma calçada da Rua Barata Ribeiro, no meio urbano de Copacabana. Entre os bares e botequins, onde o chope rola solto e as histórias da vida alheia e as partidas de futebol são discutidas como as questões fundamentais da filosofia do povo brasileiro, a coluna “A Vida Como Ela É’’ foi um fenômeno no letramento dessas redondezas. Há boatos — boatos não, eu acredito que foi verdade — de que pessoas que não sabiam ler compravam o jornal e pediam para alguém ler a coluna para elas ouvirem. Nelson Rodrigues foi um escritor que causou interesse até em quem não sabia ler. Claro, o real motivo era ficar por dentro da última história de adultério, em que os personagens tinham muitas semelhanças com os moradores do bairro, e se dizia que o Nelson recebia essas histórias em primeira mão, à boca miúda, e as usava para criar suas crônicas para o jornal.
No pé da Pedra do Arpoador fica o Largo do Millôr. Voltado para a praia de Ipanema, sentado em um banquinho de madeira, com o cotovelo apoiado no joelho e a mão fechada apoiando a cabeça (como a escultura O Pensador, de Rodin), com uma expressão séria, o Guru do Méier dá gargalhadas da vida. Digo isso pois, diante de todas as atividades que praticou, Millôr Fernandes foi humorista. Faz parte dos artistas que construíram a magia do bairro de Ipanema. Aventurando-se também pelo esporte, Millôr se autointitulava o inventor do frescobol, esporte que não conta pontos e não tem vencedor, algo para se exercitar, passar o tempo e curtir a praia. Mas os amigos diziam que o Millôr nunca toleraria sair derrotado de uma partida. Vou terminar com um poeminha de sua autoria, que usei de legenda no meu post do Instagram: “Quem quiser, ri por último / Para rir mais certeiro / Mas eu rio primeiro / Porque Rio de Janeiro.”

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