Enquanto eu tomava quentão antes do espetáculo, uma senhora, na fileira da frente, fazia uma compra no aplicativo da Magalu. O Teatro Guarany lotava para a peça O Veneno do Teatro. A noite estava agradavelmente úmida, pouco fria, nem precisava usar luvas. As pessoas foram se acomodando. Uma voz saiu da caixa de som, pedindo para desligar os celulares. A campainha deu dois toques. As cortinas abriram.

Baseado no título, esperava que em algum momento da história alguém iria tomar veneno. A cena aconteceu mais pro fim da peça quando: o ator que interpretava o personagem que era um ator, com o corpo intoxicado, se debatendo, implorava pelo antídoto.

Como o cara não era lá flor que se cheire — tinha, nesse personagem, uma arrogância, uma maldade soft —, lembrei de uma frase repetida numa prosa de balcão: Similia similibus curantur. Não precisa achar que eu sou monga ou que esse texto desandou para um beletrismo: eu ouvi, com estes ouvidos que Jah me deu, da voz de um homem que, está bem, bebia moderado, mas não usava batina: Similia similibus curantur.

O que o nosso amigo do balcão quis dizer foi que o mal se cura pelo próprio mal, ou seja, o antídoto da picada da cobra é o seu próprio veneno. Depois de beber, as pessoas apelam até para o latim. Na peça O Veneno do Teatro, o personagem, que era um ator, teve que atuar para não morrer. Ele chegou a beber o antídoto, mas não entendi se se salvou da morte. Foi uma das melhores peças que já assisti.

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